https://www.youtube.com/user/eduardoandradelong
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Clarisse.

Autor: Lázaro Marback

Secular ancila negra,
Sob correntes paralisantes,
Fita flébil, o inquieto infinito.
-Maravilha-se
E assim mesmo… Dança.



Na realidade poder-se-ia dizer…
Clarice nasceu dançando!
Quando ainda muito pequena, pequerrucha – miúda mesmo – já deu seus primeiros passos dançando. Seu desejo de dançar veio da alma, de dentro de si. Por isso ninguém jamais soube por que se manifestou este talento em Clarice.
“Por que tanto dançava Clarice?”
Clarice caminhava dançando, banhava-se dançando; dançando sorria, dançando vivia. Quando um novo dia raiava, encontrava Clarice dançando. Mesmo à noite se Clarice dormia e sonhava; sonhava que estava dançando.
Clarice que muito sorria pouco falava. Não pedia, não reclamava.
“Clarice somente dançava!”
Assim crescia Clarice, dançando. O sol ao surgir parecia vir lhe saudar todos os dias e que só resplandecia para vê-la dançar e sorrir. Na sua alegria Clarice dançava, era assim dançando que a Deus agradecia, e dançando dia adentro permanecia. Enfim, quando o crepúsculo retornava não raro a encontrava dançando.
Quando Clarice dançava, dançava toda Clarice. Dançavam seus olhos, seu dorso, seu sorriso. Até seus crespos cabelos negros, no ar, pareciam dançar.
Aos quinze anos, não era somente devido a suas danças, sempre originais, que Clarice a todos encantava, também pelo seu talhe já belo, esguio, faceiro, um tanto quanto altivo.
Clarice comemorou seus dezesseis anos dançando. Na festa do aniversário de Clarice ninguém dançou. Não, não dançaram os parentes, não dançaram os convidados, nem mesmo os não esperados; porque todos apenas queriam vê-la dançando.
Naquele dia foi tanto o deslumbramento das pessoas que os pais de Clarice sentiram n’alma orgulho e felicidade por terem gerado o talentoso ser. Além do mais, a Clarice deles apenas dançava e estava ali sob todos os seus cuidados.
“Que mal haveria em dançar, não há no mundo inteiro pessoas que se expressam dançando?”
“Que ganham muito, muito dinheiro dançando?”
“Não seria a dança tão antiga quanto o caminhar da humanidade?”
Não, não era possível haver algo do mal no fato da Clarice deles dançar! Além do mais, o mundo parecia mais vívido e menos impuro ante a graciosidade de sua Clarice dançando.
Um dia os pais sentiram falta de Clarice. Procuraram-na. Muitos, nos arredores, houveram visto a pequena passar, porém não souberam informar aonde ela fora. Na verdade, não ousaram atestar se Clarice passara indo ou se Clarice passara vindo. Isto porque se lembraram apenas de tê-la visto dançando.
No dia seguinte, encontraram a irrequieta menininha imersa nos florais do jardim da cidade. Era quase noite e chovia; entretanto, Clarice dançava. Por entre os pingos da chuva seu corpo realizava contornos no espaço. Seus pés pareciam sintonizar com o tamborilar do cair da chuva. De modo tão lindo dançava, que as pessoas paravam para observar e ali permaneciam, aplaudindo Clarice, dançando com Clarice.
Seus próximos sabiam que seus olhos nem-sempre-verdes entravam numa singular apatia quando ela não estava dançando; e sobrevinha-lhe um apático semblante demonstrando que quando ela não podia dançar o seu coração inquietava-se sofrendo, e como era lindo ver Clarice dançar!
Seguindo insuflados conselhos dos amigos, os pais de Clarice levaram-na ao Dr. analista. Então, Clarice pediu ao douto para dançar. Quando Clarice dançou, o médico compreendeu que se havia alguém doente, os doentes eram eles próprios. O que Clarice ofertava a todos era demasiado singelo e puro para aquelas pessoas compreenderem. Toda a clínica aplaudiu e dançou com Clarice.
Decidiu-se então que a pequena Clarice poderia dançar. Decidiu-se como se fosse correto impedir aquele corpinho esbelto de sair cabriolando no ar, misturando-se aos compassos musicais. Assim, desta vez, não foi feita a injunção comum e (Ave!) permitiram que Clarice dançasse.
Agora Clarice era menina-moça mais bela da região. No colégio a queriam dançando. Em casa, os irmãos, os parentes, os vizinhos se reuniam para vê-la dançar.
Certo dia, resolveram levar a terna e ainda ingênua Clarice para uma academia de dança profissional. Nas rápidas semanas seguintes Clarice aprendera os segredos da salsa, os passos marcados da valsa, a disciplina e altivez dos clássicos. “Ao requebrar-se no samba parecia criada entre os bambas”. Dançava o can-can, o vira, o afoxé. Dançava nas óperas, brilhava nas danças dos orixás do candomblé.
O mestre então disse que Clarice estava pronta. Nada mais tinha para ensinar para Clarice.
“Ela é a própria arte da dança..”.
Recomendou-a aos melhores empresários que ele conhecia. Aqueles que foram ver Clarice dançar quase não acreditaram…
Disputaram entre si o direito de contratá-la. Dispuseram e discutiram com os pais dela motivos e acordos contratuais, lançamentos e excursões, passeios, lucros e estadias, que Clarice com seu talento pagaria.
No dia da “première” novamente chovia. Clarice adentrou ao palco, confusa e impressionada com todo aquele aparato. Bem notou como a assistência estava lotada. Lá estavam seus pais, seus amigos, muitos conhecidos e desconhecidos da cidade.
Pouco Clarice havia dançado e eles começaram a aplaudir. Durante todo o tempo eles aplaudiram. Mal se podia ver, mal se podia ouvir. Quando Clarice terminou, aplaudiam todos:
- Aplaudim-na o diretor, os músicos, a platéia e o bilheteiro.
Vieram as grandes excursões e ao mundo Clarice encantou.
Ela não entendia bem por que ficar tão longe dos seus para dançar; mas sempre divinamente dançou. Encantados, os leigos a aplaudiam, os críticos aplaudiam.
- os artistas aplaudiam.
Assim o tempo fora passando. Clarice se destacava nos palcos, nos vídeos, nos jornais. Onde no mundo, a pequena Clarice estava, a bilheteria superfaturava.
Foi então que notaram que Clarice dançava demais…
“Clarice dançava demais, DEMAIS !”
Clarice vivia dançando! Colhia flores dançando? “Beijava as crianças dançando”; Abraçava os amigos dançando…
Estivessem seus pés calçados ou nus…
“Que perigo… Também dançava!”
Alguém, se pedisse para seus passos demonstrar – “Que prejuízo!” – graciosamente partia Clarice dançando.
Foi então “para sua própria segurança” que impuseram para Clarice: Fora do palco ela não poderia dançar (Cláusula contratual).
Também seus pés teriam de ser mantidos calçados, intocados, presos e oleados.
No dia que Clarice dançava na platibanda do topo do edifício…
- A platéia não aplaudia… seus pais não entendiam, seu empresário blasfemava.
Na verdade, ela não estava se importando de estar ali, rompendo cláusulas contratuais.
Da borda da laje do altíssimo edifício de fria arquitetura de cimento e aço, Clarice perscrutou o horizonte e maravilhou-se, pois achou que todo o hemisfério dançava.
Dançavam os astros, dançavam as nuvens, dançavam as marés, dançavam as galeras e as gaivotas, ao ritmo da brisa do mar. Clarice viu também que imersas na mesma brisa fluídica as folhas das copas das árvores dançavam.
Ela agora se sentia mais alegre, liberta; porquanto realmente concebia haver dança em tudo.
“Em tudo? Nem tanto… “
Observou que algo estava inerte lá embaixo.
“Mesmo assim, a seu redor várias pessoas dançavam.”
De repente, pode ver melhor… Era seu próprio corpo!
Mas que importância poderia isto ter? Era apenas uma infinitésima parte de matéria do universo paralisada.
Além do mais, ela nunca compreendera bem essas coisas.
Ela agora finalmente se sentia em um verdadeiro estado de êxtase; fascinada! Percebera que dispunha diante de si de todo o infinito para poder livremente dançar.
Foi assim que a pequena Terpsícore partiu…
- Dançando no ar.

Lázaro Marback D’Oliveira
Extraído do livro “Súmulas do Valor da Vida”
publicado por universoinverso às 22:42 | link do post
Brincadeira.

Autor: Anton Tchekhov


Um claro dia de inverno... O frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante. Estamos no cume de um morro alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante na qual o sol se mira como um espelho. Ao nosso lado está um trenó pequenino, forrado de pano vermelho-vivo.
- Deslizemos até embaixo, Nadêjda Petrovna! - imploro eu. - Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!
Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se lhe afigura como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego. Só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó - que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá!
- Eu lhe suplico! - digo eu. - Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!
Nádenka cede, finalmente, e eu vejo pelo seu rosto que ela cede com perigo da própria vida. Acomodo-a, pálida e trêmula, no trenó, sento-me, enlaço-a com o braço e junto com ela precipito-me no abismo.
O trenó voa como uma bala. O ar cortado chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca raivoso, até doer, quer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento tolhe a respiração. É como se o próprio diabo nos tivesse agarrado com as suas patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece, um instante mais, e estaremos perdidos!
- Eu te amo, Nádia! - digo eu a meia voz.
O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Está pálida, mal consegue respirar... Eu a ajudo a levantar-se.
- Nunca mais farei isto - diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. - Por coisa alguma do mundo! Por pouco não morri!
Logo depois, ela volta a si e já me fita com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi apenas uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.
Ela toma o meu braço e passeamos longos minutos diante do morro. O problema, visivelmente, não a deixa em paz. Foram pronunciadas aquelas palavras, ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka perscruta o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde atabalhoadamente, espera que eu fale. Oh, que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo que ela luta consigo mesma, que precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra palavras, está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria...
- Sabe duma coisa? - diz ela, sem olhar para mim.
- O quê? - pergunto eu.
- Vamos mais uma vez... deslizar pelo morro.
Subimos para o cume, pela escada. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo nos despencamos no precipício medonho, de novo uiva o vento e zunem as lâminas, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge do ímpeto e da zoeira, eu digo a meia voz:
- Eu te amo, Nádenka!

Quando o trenó se detém, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois perscruta longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o regalo de peles e o capuz, toda a sua figurinha, exprime extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito:
"Mas o que é que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou foi engano dos meus ouvidos?"
Esta incerteza a perturba, a impacienta. A pobre menina não responde às minhas perguntas, franze a testa, está prestes a romper em choro.
- Não preferes ir para casa? - pergunto eu.
- Mas eu... eu gosto destas... descidas - diz ela, enrubescendo. Não quer deslizar mais uma vez?
Ela "gosta" destas descidas, e no entanto, sentando-se no trenó, ela, como das outras vezes, fica pálida, ofegante de medo, trêmula.
Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fita o meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos ao meio do declive, deixo escapar:
- Eu te amo, Nádia!

E a charada continua charada! Nádenka se cala, está pensando... Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer:
"Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!"
No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: "Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N." E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:
- Eu te amo, Nádia!
Logo Nádenka acostuma-se a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. É verdade eu voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas já agora o medo e o perigo adicionam um encanto especial às palavras sobre o amor, as palavras que, como dantes, constituem uma charada e oprimem a alma. São sempre os mesmos dois suspeitos: eu e o vento... Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas, ao que parece, isto já não lhe importa mais; não importa o vaso em que se bebe, importa ficar embriagada!
Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e vejo como Nádenka chega até o sopé, como me procura com os olhos... E depois, timidamente, ela sobe os degraus... Ela tem medo de ir sozinha, oh, quanto medo! Está pálida como a neve, treme e vai, como se fosse para o cadafalso, mas vai, vai sem olhar para trás, com decisão. Pelo visto, ela resolveu, finalmente, tirar a prova: será que se farão ouvir aquelas palavras estranhas, quando eu não estiver junto? E vejo como ela, lívida, com a boca entreaberta de horror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, o põe em movimento... "zzzzzz..." zunem as lâminas. Ouvira Nádenka aquelas palavras? Não sei... Vejo apenas como ela se levanta do trenó, exausta, fraca. E vê-se pelo seu rosto que nem ela mesma sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou-lhe a capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender...
Mas eis que chega o mês de março, primaveril... O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e se derrete, afinal. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a Petersburgo - por muito tempo, quiçá para sempre.
Uma vez, pouco antes de partir, uns dois dias, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, debaixo do lixo, ainda há neve, as árvores ainda estão mortas mas já cheira à primavera, e, preparando-se para a noitada, as gralhas fazem grande algazarra. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento... O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado... Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima... E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz:
- Eu te amo, Nádia!
Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.
E eu vou arrumar as malas...
Isto foi há muito tempo. Agora, Nádenka já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis - isto não importa - com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras "eu te amo, Nádenka", não foram esquecidos. Para ela, isto é hoje a mais feliz, a mais comovedora e a mais bela recordação da sua vida...
Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais, para que dizia aquelas palavras, porque brincava...


(Tradução de Tatiana Belinky, Universidade Federal do Rio Grande de Sul - Brasil)
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publicado por universoinverso às 03:50 | link do post

O Sonho de Larry Boyhood.

Tradução e Adaptação: Eduardo Andrade

Quando ele se formou no segundo grau, juntou-se a Força Aérea Americana, na esperança de tornar-se um piloto.
Infelizmente foi desqualificado por problemas de vista.
Quando finalmente foi dispensado, não conseguia se satisfazer apenas observando aviões a jato passando pelo céu, no fundo do seu quintal.
Um dia, Larry, teve uma ideia brilhante.
Ele decidiu voar.
Foi a uma loja local que fornecia suprimentos para a Marinha e Aeronáutica e comprou 45 balões atmosféricos e vários tanques de gás hélio.
Os Balões atmosféricos, quando totalmente cheios, medem mais de 1,20 metros de comprimento. De volta para casa, Larry amarrou os balões, com segurança, a sua cadeira de jardim, ancorou a cadeira no pára-choque de seu jeep e inflou os balões com hélio.
Subiu para um teste, enquanto "aquilo" estava apenas a alguns centímetros do chão. Satisfeito, pois funcionou, Larry empacotou vários sanduíches, seis caixas de cerveja, carregou sua arma - pensando que era só atirar em alguns balões quando fosse hora de descer - e voltou para a cadeira flutuante.
Ele se amarrou, junto com sua arma e as provisões.
O plano de Larry era flutuar preguiçosamente a uma altura de uns 10 metros no fundo do seu quintal, depois que cortasse a corda da âncora e voltar para o chão depois de algumas horas.
Mas as coisas não funcionaram exatamente deste jeito...
Quando ele cortou a corda que amarrava a cadeira de jardim ao seu jeep, não flutuou preguiçosamente na altura que pensava.
Ao invés disto, ele foi arremessado rapidamente para o espaço, como se fosse atirado por um canhão.
Ele não ficou a uma altura de 10 metros, ou 50 metros.
Depois de subir... subir...subir... ele ficou nivelado a uma altura de 3.300 metros.
Naquela altura, ele não podia correr o risco de atirar em nenhum dos balões, pois a carga poderia ficar sem equilíbrio e assim, estaria realmente em apuros.
Portanto ele ficou lá, levado pela corrente de vento, com frio e assustado, por mais de 14 horas.
Foi então que realmente ele imergiu em um grande problema, pois foi levado pela corrente de vento para o corredor primário de aproximação de aeronaves do Aeroporto Internacional de Los Angeles.
Um piloto da United Airlines foi o primeiro que viu Larry.
Ele entrou em contato com a torre e descreveu que estava acontecendo: "Estou vendo um cara sentado em uma cadeira de jardim, com um revólver na mão".
O radar confirmou a existência de um objeto flutuando a 3.000 metros sobre o aeroporto. Internacional de Los Angeles.
Os procedimentos de emergência foram acionados e colocados em alerta total e um helicóptero foi enviado para investigar o assunto.
O Aeroporto de Los Angeles é perto do oceano.
A noite foi caindo e a brisa costeira começou a soprar.
Isto carregou Larry para o mar, com o helicóptero perseguindo-o.
Várias milhas depois o helicóptero conseguiu alcançá-lo.
Uma vez que a equipe determinou que Larry não era perigoso, começaram a tentativa de aproximação para o resgate, mas o vento forte das lâminas do helicóptero, empurravam Larry para longe, sempre que eles chegavam perto.
Finalmente, o helicóptero subiu em uma posição de vários metros acima de Larry e lançou uma corda de salvamento.
Larry agarrou a corda e foi trazido de volta para a costa.
A manobra difícil foi executada sem falha pela tripulação do helicóptero.
Tão logo, Larry foi trazido para a terra, foi preso por membros do Departamento de Policia de Los Angeles, por violar o espaço aéreo do aeroporto.
Enquanto era levado algemado, um repórter enviado para cobrir o resgate, perguntou por que ele tinha feito aquilo.
Larry parou, virou, suspirou e respondeu com sangue frio:
"Um homem não pode apenas ficar sentado aqui no chão observando os aviões voando lá no céu."

publicado por universoinverso às 03:07 | link do post

O Cachorro e o Jeep

Tradução e Adaptação: Eduardo Andrade.

Um cara de Michigan comprou um Jeep Grand Cherokee, no valor deU$ 30 000,00 dólares, como presente de natal.

Então ele partiu para o seu bar favorito e junto com os seus amigos, começou a comemorar despejando litros e litros de cerveja pela garganta abaixo, em um daqueles rituais que unem os homens.

Em um dado momento, todos já bêbados, os cinco amigos decidiram fazer um teste de direção com o novo veículo e acharam que a melhor forma, seria fazer uma expedição para caçar patos ou pescar.

Eles carregaram o Jeep com um cachorro, as armas, as iscas e cervejas e dirigiram-se para um lago próximo.

Agora é alto inverno e o lago está congelado, portanto eles precisavam fazer um buraco no gelo para guardar as iscas e tentar uma pescaria, mais tarde.

É prática comum em Michigan, levar o veiculo para o lago congelado e também é comum (mas ligeiramente ilegal), fazer um buraco no gelo usando dinamite.

Nossos amigos, não tinham com o que preocupar, pois um dos membros da festa, trabalhava para uma Empresa de Construção de Estradas e havia levado algumas dinamites com ele.

O pavio das bananas de dinamite, detona o artefato em 20 segundos.

O grupo estava pronto para a ação.

Todos estavam preparados.

Suas armas estavam carregadas com balas para matar patos e todos tinham cerveja suficiente, roupas quentes e um cachorro de caça.

Então, começaram a discutir a forma mais segura de fazer um buraco no gelo com a dinamite.

Um desses cientistas de foguetes, destacou que a dinamite deveria explodir, longe do local onde eles estavam.

O outro, falou sobre o risco de escorregar no gelo quando estivesse fugindo do pavio aceso da dinamite.

Finalmente, eles concordaram e decidiram que o jeito mais seguro, seria acender o pavio da dinamite e atirar bem longe no gelo.

Houve um pouco de discussão sobre quem tinha o braço mais forte, porém, no fim, o dono do Cherokee venceu com honras e palmas.

Uma vez que a questão estava fechada, ele caminhou cerca de cinco metros para dentro do gelo e segurou a banana de dinamite firme, enquanto um dos seus companheiros acendia o pavio, com um isqueiro Zippo.(Aquele imortalizado isqueiro da guerra do Vietnã, que quando os soldados acendiam o cigarro na noite, eram fuzilados, pelos vietcongs).

Tão logo ouviu-se a espoleta chiar, ele atirou a dinamite através do lago e correu na outra direção.

Infelizmente, um membro de outra espécie, viu o movimento do braço do seu mestre e tomou uma decisão instintiva.

Lembram-se de alguns parágrafos atrás eu mencionei: O veículo, a cerveja, as armas e o cachorro?

Sim, o cachorro!

Um Labrador preto, nascido, criado e treinado para recuperar, especialmente coisas, atiradas pelo seu dono.

Tão logo a dinamite deixou aquela mão, o cachorro correu a toda velocidade sobre o gelo, empenhado em segurar entre suas mandibulas, o atraente objeto em forma de bengala de dinamite.

Cinco frenéticos amigos começaram a gritar para o cachorro, tentando fazê-lo parar de perseguir o objeto.

Porém...

Seus gritos ecoaram em ouvidos surdos...

Antes de você imaginar, o “recuperador” estava dirigindo-se de volta para o seu dono, todo orgulhoso, com uma banana de dinamite com o pavio aceso e pronta para explodir em 20 segundos.

O grupo continuou a gritar, enquanto o cachorro feliz, trotava em direção deles.

Em um ato desesperado, o seu mestre, agarrou uma arma e disparou em seu próprio cachorro.

A arma estava carregada com balas para matar patos e confundiu o cachorro mais do que o feriu.

Perplexo, o cão continuou em direção do seu dono que atirou no melhor amigo do homem, novamente.

Finalmente, compreendendo que o seu dono tinha ficado louco o cachorro procurou por proteção com o rabo entre as pernas e o lugar mais próximo para se proteger, foi embaixo do Jeep, Grand Cherokee, novinho em folha.

Então...

Boommm, o cachorro e o Jeep explodiram em pedaços e afundaram no fundo do lago, deixando um grande buraco no gelo de sua superfície.

Os homens ficaram parados de pé, olhando para as águas do lago, com um jeito estúpido em seus rostos.

Ao dono do Jeep, ficou a missão de explicar a má sorte a companhia de seguro.

Nem é preciso dizer: eles determinaram que um veiculo afundado num lago, por uso ilegal de explosivos, não tinha cobertura da apólice de seguros.

O dono do Jeep , ainda está fazendo pagamento de U$ 400,00 dólares das prestações mensais do seu Grand Cherokee, novinho em folha, que agora repousa tranqüilo e em pedaços, junto com os restos mortais de um Cão Labrador, no fundo do lago Michigan

publicado por universoinverso às 03:07 | link do post

A Velha e a Morte

Autor: Eduardo Andrade

A velha sentada em sua cadeira de balanço, segurava com suavidade as agulhas de crochê. As mãos trêmulas pela fadiga provocada pelo tempo, não obedeciam aos seus comandos. Enfim, no fim da vida a fraqueza corroia-lhe por dentro extraindo-lhe as últimas forças dos ossos.
Mesmo assim tinha sido uma mulher total.
Filha, Mãe e Avó.
Tinha sido grande em latitude e longitude; do tamanho do mundo.
Apesar de nunca ter saído daquela fazenda no sertão, tinha sido feliz.
A vida não tinha sido fácil para ela.
Depois de muitos anos de fartura, as coisas foram piorando, piorando e piorando, o gado morrendo a plantação secando e então com os olhos cheios de água, viu os seus filhos irem embora no último ônibus que passou por aquelas terras inóspitas.
Tanto tempo, que ela havia perdido tudo aquilo na memória.
Eles foram em busca de uma vida melhor no sul próspero, distante e feliz...
“A felicidade é o que todos buscam, não é?” Exclamava!
Por isto, ela não lamentava!
“Mulheres têm que ser fortes”, ensinou sua mãe.
“A vida só vale a pena se você admitir como ela se apresenta” Ensinava seu pai.
Deste jeito foram passando tantos anos, que até pareciam Eras.
E o verde foi caindo das árvores...
Agora seus olhos ressecados pelo tempo, pouco enxergavam.
Olhando por baixo dos óculos de aro fino, enxergou-se criança novamente, brincando na areia em frente da varanda de sua casa.
Aquela menina pequena e linda, com os cabelos dourados feito espiga de milho novo, brotando no calor do verão.
Ciranda Cirandinha vamos todos cirandar.. Bandeira 1. Cabra Cega...Sétimo Céu...
Brincadeiras de crianças...
De bonecas para bonecas...
Sonhos e ilusões. .
Mas agora, seus olhos não tinham mais o brilho de bolinhas de gude soltas sob o sol da manhã.
Uma névoa tênue feito neblina do inverno, cobriam seus olhos e sua vida.
Sentiu-se correndo feliz dentro de casa, como se houvesse uma infinidade de tempo para viver e perder.
Na companhia de amigos e primos, murmurou alguma coisa em vão, num soluço.
Num alvoroço...
Qual pedacinho do mundo teria perdido?
O que restava da vida, dilacerando os seus últimos momentos?
Suas mãos sujas de areia, segurando as agulhas de tricotar, sentada na cadeira de balanço sacudida pelo vento da tarde, não significavam mais nada.
Nuvens no céu anunciavam uma tempestade.
O vento trazia a algazarra das crianças e o latido dos cães das fazendas distantes...
Olhou para o céu e nuvens raivosas, ameaçadoras, passeavam velozmente sobre sua cabeça.
No sertão era assim, ficava muito tempo sem chover e depois chegava o dilúvio...
O momento final...
A morte...
Olhou para a cadeira de balanço e o rosto daquela velha parecia tanto com o seu rosto pequenino e feliz de menina.
Era como se mirasse em um espelho e atravessasse o tempo em direção de um passado distante.
O cheiro doce de casca de goiaba cozinhando no tacho de cobre sobre o fogão de lenha, inundava a casa.
Sua Mãe...
Seu Pai...
Sua vida...
Pingos grossos de chuva começaram a cair.
Olhou para um lado e seu pai vinha chegando, montado em um lindo cavalo branco e suado, como se estivesse eternamente procurando-a.
O mesmo cavalo que ele costumava passear com ela na garupa, percorrendo a fazenda nas manhãs de Domingo.
Da cadeira de balanço onde estava, viu aquele velho homem apear do cavalo indo em direção da garotinha que estava com as mãos sujas de barro.
Tudo estava perfeito.
Nem os sonhos tinham com o que sonhar.
O gado pastava ao longo da cerca de arame e madeira e um imenso pomar a se perder de vista, estendia-se como se fosse um paraíso fundindo um sonho com a realidade.
Mas seu pai havia morrido a tanto tempo...
Sentada em sua velha cadeira, seus olhos marejaram-se de lágrimas.
A garotinha levantou-se e foi correndo em direção de seu pai na maior felicidade do mundo.
Ao abraçá-lo, sentiu o calor de mil sóis aquecendo-a.
A velha na cadeira estava fria como se passeasse nua nas florestas congeladas da Sibéria.
E pai e filha saíram caminhando em direção da luz.
Luz da Eternidade, luz de uma nova vida.
Aqui na Terra, nada se perde...
Tudo se transforma.
Agora tudo estava calmo, a lucidez permeava o momento.
Era como se uma paz imensa tivesse alcançado aquela criatura e ela finalmente estava livre para viajar sem fronteiras, por mundos antes só vistos em sonhos.
E a velhinha continuou dormindo em seu sonho eterno de menina.
A morte vestida de criança, tinha acabado de levá-la embora.
A morte tem mil faces...
Cheia de bichos traiçoeiros,
Cheia de faces de velhos, vestindo crianças...
Cheia de crianças transformadas em velhos...
Andando feito fantasmas pelo mundo.
Enfim,
A vida é cheia de centelhas de vida...
E do fulgor inquietante da morte.

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TERRA VIVA (Visão Xamânica)

Autor: Eduardo Andrade 

O Velho da Montanha tinha um cachorro; para ser mais exato, era uma linda cachorra da raça pastor alemão. O pelo do animal era lindo, sedoso e oleoso feito cabelos de índias, bem tratados. Mas como acontece com todos os cachorros desta raça, ela tinha a saúde muito frágil.
Um dia o velho levantou cedo e saiu da sua casa de madeira para respirar o ar puro das montanhas pela manhã. Ao sair, deparou com sua bela cachorra sorridente. Ele percebia que aquele animal era melhor do que muito ser humano, só não sabia conversar.
Talvez fosse um pouquinho de loucura de sua parte, pois muitas vezes ele sentia o pensamento daquele animal.
Era como se ela pensasse sempre que o via:
“Meu amigo está chegando!”
Não foi apenas uma vez...
Se tivesse sido apenas uma vez, poderia ser fruto de sua imaginação, coincidência ou apenas divagação mental, de um homem que vivia sozinho no meio do mato, ouvindo apenas o murmúrio da correnteza nos córregos, o canto dos passarinhos e o assovio dos ventos passeando por entre os troncos das árvores.
Ao terminar o pensamento, ele percebeu um movimento brusco que a cachorra fez em volta de si mesma, como se quisesse pegar uma mosca invisível.
Ele pensou: “Ela deve estar brincando!” — Porém a cachorra continuou aquele movimento estranho.
O velho saindo de sua casa na manhã fria foi caminhando em direção da cachorra.
Ao aproximar-se, notou um grande buraco embaixo do rabo dela, por onde vertia sangue.
— Vem cá. Ele chamou-a como se desse uma ordem.
O robusto animal aproximou-se.
Ele segurou o rabo do bicho levantando-o e expondo o grande ferimento.
“Bicheira” — Pensou.
“Como surgiu tão de repente do nada...” Continuou a pensar.
“Amanhã vou a cidade, passo na oficina de carros, compro um óleo queimado e vou debelar esta maldita doença, trazida pelas moscas.”
O que ele não sabia é que alguém vestido de negro com uma foice na mão rondava aquele lugar.

A noite chegou envolvendo todo o ambiente.
A noite era linda no alto das montanhas. O velho sentado sozinho no batente da porta olhava as estrelas no céu azul-escuro e agradecia a dádiva divina de poder sentir a sístole e a diástole dando ritmo e bombeando o seu sangue que corria por dentro das suas velhas veias.

A cachorra aproximou-se e latiu num gemido.
Ela nunca tinha latido deste jeito. Mais uma vez ele sentiu aquela coisa dizendo para ele:
— Estou doente, muito doente.

Ele levantou-se inquieto e pensou que deveria ter ido a cidade logo pela manhã.
Por que deixou para o próximo dia?

Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje, afinal de contas, pode ser tarde demais.

Aquela coisa resmungando dentro dele estava tirando a sua paz de espírito.

Havia alguma coisa sofrida tirando o seu sossego.

Seria a cachorra?

Foi em direção do fogão de lenha e juntando algumas brasas com um pedaço de pau, começou a soprar dando vida ao fogo.
Pegou um bule velho com uma alça adaptada de madeira e colocou o café para esquentar. Virou as costas e foi sentar-se em um banquinho de jacarandá.
Meteu a mão no bolso, tirou um fumo de rolo e colocou metodicamente sobre a mesinha secular.
Com calma agarrou uma faca que tinha o cabo de chifre de boi e pensou nas histórias que aquele instrumento tinha para contar. Ela era uma herança de seu avô. Uma relíquia que já tinha ido até a guerra do Paraguai, quando a matança de mulheres e crianças tinha enchido de orgulho toda uma nação e foi um fator decisivo para a derrubada do Império e a criação da República.
Um pensamento fulminante veio para colocar fim ao seu lamento:
“Eles que começaram”.
“Eles que provocaram.”
“Ele, Solano Lopez, queria ser o imperador das Américas.”

“ Todo bom mineiro dá um boi para não entrar em uma briga, mas se entrar, então dá uma boiada inteira para nunca mais sair dela.”

Com firmeza em sua mão, começou a raspar a única palha de milho que restava. Depois de deixá-la preparada, picou o fumo e com maestria enrolou o cigarro. Foi ao fogão, encheu uma caneca de café quente, forte e amargo e num longo gole, o sentiu descer queimando pela garganta.

Café forte fazia-lhe sentir jovem novamente.

Depois de sorver todo o café, pegou o cigarro e acendeu em uma brasa e voltou para a porta em frente da casa sentando-se no batente de madeira. A cachorra de longe acompanhava os seus movimentos com os olhos inteligentes.

Ele sentou, matutou e novamente uma conversa tocou seu cérebro:

— Vou morrer, estou mal, o pior possível. Sinto os bichos corroendo minhas entranhas. Eles estão acabando comigo...

O pio de uma coruja avisou-lhe que já era hora de dormir. Quem sabe se o sono não lhe traria um belo dia cheio de sol e bons pensamentos. Afinal ir a cidade sempre era uma ótima curtição.
Ele não sabia que um pesadelo estava porvir.



O sonho começou com sua cachorra correndo brincalhona por entre as árvores da floresta atlântica. Ele no sonho estava jovem, cheio de vigor e energia.
Com sua espingarda no ombro andava para dentro da mata para caçar veados, porcos do mato, tatus, pacas ou qualquer outra espécie comestível.
Até mesmo onça pintada ele matava para arrancar o couro e vender na cidade.

De repente saltou em sua frente um enorme animal.
Ele imediatamente, num reflexo atirou.
Era sua cachorra que ele havia acertado.
Correndo desesperado, ao aproximar-se viu que o lado esquerdo do animal pegava fogo.
Indo em direção de uma árvore, cortou um galho cheio de folhas e voltou sobre sua sombra tentando apagar as labaredas.
Era tarde demais...
Quando olhou a cachorra estava em pé com os olhos vermelhos pingando sangue.
O fogo tinha consumido-lhe todo um lado.
Ela estava dividida em duas bandas exatamente iguais.
De um lado o seu pelo estava lindo e sedoso como sempre tinha sido.
Do outro lado dava para ver sua caveira expondo os seus ossos brancos de marfim.

O velho num salto semi-acrobático, pulou do seu catre e respirando fundo limpou o suor que lhe empapava o peito de cabelos quase que totalmente brancos.

“Graças a Deus.” Pensou com alívio.
Foi só um sonho!

Voltou a sentar-se sobre o lençol e talvez agora não conseguisse mais dormir.
Recostou-se e ficou pensando na vida.

Sua mulher, mãe de seus dez filhos tinha morrido a muitos anos, por causa de uma complicação no parto do que teria sido o seu décimo primeiro filho.

Os dois tinham sido enterrados na mesma vala, mãe e filho.

Depois ele nunca mais se engraçou com mulher nenhuma.
Vez ou outra quando a fraqueza de sua carne pedia, ele ia à cidade na casa da luz vermelha comer seu frango ensopado predileto, feito pela dona que dirigia a espelunca.
O frango dela como desculpa, atraia todos os homens da região.
Prefeitos, Vereadores, Fazendeiros, Canoeiros, Caminhoneiros, etc.

. Toda estirpe de gente já havia provado as delicias daquele prato, acompanhado pela cerveja sempre gelada e o perfume barato das moças daquele antro.

Nisto a manhã chegou.

Ele levantou-se arrumou sua bagagem num alforje aprontando para ir a cidade.
Primeiro iria ao rio que passava perto de sua cabana nas montanhas, para tirar o gosto da noite, do corpo.

Abriu a porta e a primeira coisa que viu foi sua cachorra caída no meio de uma poça de sangue.
Havia sangue por todos os cantos, no tronco das árvores, no chão de terra, no batente da porta, no caminho que dava para a estrada.
Parecia ter havido uma carnificina.
Ele aproximou-se e com os olhos nadando em lágrimas, começou a chorar.
Era um choro que partia lá do fundo da alma.
A floresta tinha virado um imenso cemitério.
Tudo parecia chorar.
Os bichos, o vento, o sol faziam coro com ele naquela manhã perdida no fundo dos tempos.
“Os homens não choram, deixe isto para as crianças.” — Tocou-lhe um pensamento.

Amargurado, ajoelho-se e pediu a Deus que cuidasse daquele espírito animal, tão lindo, tão dócil, tão inteligente, tão amigo, tão tudo...
O melhor amigo do homem, sua única companhia em tantos anos de retiro quase espiritual, tinha ido embora sem nem mesmo dar um latido de despedida.

Neste exato momento estava se sentindo tão velho, quase como se tivesse a mesma idade da terra.
Sufocado pelo silêncio, levantou-se.

A vida continua...

Procurando entender um sentido para morte, em uma divagação filosófica, entendeu que ela era uma parte da vida e que talvez a vida não tivesse significado algum se não houvesse esta tétrica palavra.

Sentindo-se extremamente cansado, entrou em seu barraco.

Não havia mais necessidade de ir a cidade, a não ser para encher a cara de cerveja e afogar suas mágoas no esquecimento provocado pelo álcool.

Deitou-se novamente e num instante voltou a sonhar.

No sonho o mundo parecia ser cheio de luz, uma luz brilhante indescritível em palavras.
As plantas os animais e todos os elementos da natureza pareciam comungar em conjunto com a força que move o universo.

Tudo tinha ligação entre si, todas as coisas eram interdependentes.

Da pequena pedra no fundo do rio, até o brilho das estrelas mais distantes eram ligadas entre si.

Uma chama.

Homens, pedras, plantas e água eram seres vivos e tinham todo respeito do criador, como se fossem iguais.

O sonho desvendando-lhe os mistérios continuou...

Um carro de boi vinha pela estrada, sobre ele um jovem forte de chapéu e bem aparentado, com uma vara tocava os bois pela trilha.

Na carroça uma linda mulher jovem e grávida estava sendo conduzida para a cidade para dar a luz ao seu primeiro filho.

O velho sentado na porta via a sua cachorra morta e a carroça simultaneamente.

O ruído da roda do carro de boi penetrava-lhe afiado, enfiando-se pelos ouvidos adentro e despertando-lhe o cérebro.

Era um sonho tão real...

Ele olhando aquela cena, percebeu que um fio de ouro começou a sair de sua cachorra morta.
O fio começou a crescer insuflado de luz e foi em direção da jovem e bela mulher grávida, penetrando-lhe o ventre.

Ele viu a mulher sorrindo.

Um sorriso cheio de felicidade saia pelos seus dentes brancos, feito as neves eternas do Everest.

O velho agora compreendia o que ligava todos os seres.

O jovem mancebo olhou para trás e viu sua mulher contorcendo-se de dor.
Pulou voando da carroça e foi atendê-la no trabalho de parto.

O velho acordou num sobressalto, ao chegar da janela lateral, ouviu um choro de criança.
O pai segurava uma bela menina em seus braços.
A mãe suada, não sabia se chorava ou se sorria.

O velho sorriu...
Por fim entendia que os pássaros, as árvores, as baratas e as moscas tinham uma sabedoria intrínseca e natural.
A sabedoria que os homens buscam nos livros e nas escolas é ensinada pela vida aos pequenos seres que se entrelaçam na dança da existência.

O velho finalmente compreendeu o significado de tudo.

Finalmente ele poderia morrer tranqüilo e feliz, pois sabia que a Terra em sua totalidade, era um ser vivo.

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Halloween

Autor: Eduardo Andrade

Ontem no dia 31/10/2008, no Dia das Bruxas, quando os antigos Celtas que viviam na Irlanda faziam oferendas aos mortos, aos espíritos e a todas as divindades, para agradecer a boa colheita do final do verão, eu tive um sonho, onde uma entidade me disse: “Os Seres Humanos são apenas bolinhas de sabão voando pela eternidade e estourando com o passar de um ínfimo tempo!”
Então no sonho eu quase enlouqueci.
Sonhei com minha avó, meu tio, meu avô, meu pai e todos que foram dar um passeio pela eternidade.
Acordei suado e me perguntei: Onde estão todos?
Agente vai vivendo e ficando sozinho. Cada um sonhando seus sonhos e vivendo sua vida e ganhando e perdendo. A perda mais sofrida é a perda dos nossos entes queridos. Esta fica cravada na memória feito um prego incandescente de fogo.
Mas agente também ganha. Hoje tenho minha filha e meus sobrinhos que vão fazer o futuro e me dão alegria força e fé.
Eu amo todos!
Isto é o que realmente tem valor; o amor incondicional pelas pessoas com quem os laços nos unem.
E a vida continua... Agente remando um barquinho nas ondas bravias da nossa existência.
E com Luz, Paz e Amor, um dia agente chega lá.
Mas lá onde?
Quem sabe?
Sei lá!
Talvez Deus, numa bela tarde cheia de sol, nos dê uma linda resposta de transcendência!
"Os Bichos vivos, são bolinhas de sabão que estouram com o tempo, porém, os espíritos das bolinhas de sabão, continuam...".
Esta é minha pequena homenagem, a todos que pegaram um trem e partiram para as estrelas...

publicado por universoinverso às 03:05 | link do post

Da Boca do Povo

Autor: Eduardo Andrade

O centro de Belo Horizonte estava uma verdadeira confusão.
Um homem ameaçava pular do topo de um prédio.
Na esquina um vendedor de frutas, deixou uma senhora com o dinheiro na mão e saiu para ver o fato inusitado. Lá do alto do edifício o homem gritava alguma coisa incompreensível.
Um grupo de jovens vestidos em uniforme de colégio, parou para observar a cena.
Um velhinho que acabara de sair de um banco, meteu um pacote de dinheiro no bolso e aproximando-se de uma senhora, que parada olhava para cima meio extasiada com a boca aberta, comentou:
— Moro nesta cidade a 50 anos e sempre vi alguém querendo virar passarinho neste prédio. Até parece maldição. Então a mulher falou de um jeito triste e sem vida.
— Por que será que eles, os suicidas, adoram este lugar?
A pergunta ficou no ar, quando o velhinho abriu a boca e deixou cair a dentadura branca feito porcelana chinesa.
Nisto o grupo de jovens descontraídos, começou a gritar em coro: “Pula, Pula, Pula...”
No cruzamento da esquina os carros começaram a parar, businas pipocavam por todos os lados, de toda altura e de todo tipo. O semáforo ficou verde, no entanto os motoristas que viam a cena desciam dos seus carros para observar a iminência de um suicídio. Lá do alto, o homem levantou um braço onde exibia um cartaz com a foto de uma linda morena de biquíni.
O vendedor de frutas, falou com a senhora que permanecia segurando a nota de dez reais, com um ar abobalhado.
— Eu conheço aquele cara! Ele logo de manhã passou por aqui e me contou que sua namorada tinha resolvido posar nua para uma revista masculina, por isto ele ia se matar...Eu não acreditei, mas...
— Não acredito que só por uma bobagem desta, ele vai atentar contra sua própria vida, ó meu Jesus, que mundo cão. Disse a senhora com o dinheiro na mão. (êta riminha pobre).
A bagunça aumentava ainda mais. Um carro da policia chegou com sua sirene no limite que os tímpanos podiam suportar, piscando suas luzes frenéticas, como se houvesse um show de rock na manhã tropical.
De dentro pularam quatro policiais com cara de bulldogs.
O cara no alto do prédio havia acabado de sentar-se na beirada de concreto, balançando suas pernas gritando algo ainda mais incompreensível ainda. Um dos policiais olhando para cima com ar desconfiado, falou:
— Mais um louco ou drogado. Merda de mundo fodido que agente tem que enfrentar no dia a dia. O outro policial com cara de doutor vidente, disse:
— Eu conheço aquele individuo. A mãe dele era uma prostituta que se casou com um padre e ele deve estar com medo de se transformar em lobisomem, nas noites de lua cheia. Melhor a morte que viver assim, não é? (Este é da pá virada, não?)
O cara lá no alto, levantou-se, e ficando em pé na beirada de concreto, tirou a camisa e ficou girando-a sobre a cabeça, como se estivesse com uma corda pronto para laçar um boi selvagem nas nuvens. Então, pulou para trás e saiu do campo de visão da multidão lá embaixo.
Havia um burburinho.
Uns conversavam com os outros e os outros conversavam com todos.
Um vento suave balançou as folhas das árvores, fazendo cair folhas de outono.
Os minutos pareciam paralisar o momento.
Um pequeno fio de eternidade unia todos naquela praça faminta de circo.
Nisto, deu para perceber o sujeito lá em cima aproximar-se correndo e parar na borda do céu, lançando a camisa branca no vácuo.
A camisa veio descendo lentamente, respeitando as correntes de vento que percorriam o centro da cidade. A mulher, ainda com o dinheiro estendido na mão, olhando para cima e sem enxergar direito, pensou que o suicida havia pulado. Imediatamente, caiu no chão desmaiada, dura feito uma pedra de sabão. O vendedor de frutas para não perder a oportunidade e acrescentar mais um pouquinho ao seu lucro, agarrou a nota da mão dela e enfiou disfarçadamente no bolso, sem pensar em troco. Um dos policiais vendo aquilo veio correndo e falou:
— Você roubou o dinheiro desta senhora aqui no chão! O ambulante, com cara de pura inocência, retrucou:
— Não roubei não dotô, ela estava me devendo...olha a fruta lá na outra mão dela! O policial pareceu concordar e abaixando-se, colocou a mão em sua fronte para examiná-la. Levantou-se, e um tanto preocupado, acionou o rádio para chamar uma ambulância. A cada minuto, juntavam-se mais alguns transeuntes a multidão. De uma igreja, que ficava do outro lado da avenida, começaram a sair os fieis atraídos pela algazarra. O padre saiu primeiro e ao ver o homem lá no alto, fez o sinal da cruz para afastar o velho demônio, e ajoelhou-se. Lá no topo o homem parecia possesso e insano e voltou a gritar coisas, que da altura não chegavam até o povo lá embaixo. Uma senhora que tinha saído logo atrás do padre, meteu a mão em uma bolsa preta velha e carcomida que carregava sob o braço e tirando de dentro uns óculos, com lentes mais grossas que fundo de garrafa, colocou desajeitadamente a geringonça na cara e ficou meio míope olhando para o céu. Ao localizar o jovem olhou para amiga ao lado e sapecou uma frase curta e lamentosa:
— Oh minha virgem Maria. É o Toninho!!!
— Toninho qual? Perguntou sua amiga.
— Um vizinho do meu apartamento que tem problemas com drogas... coitado. A mãe não sabe mais o que fazer com o menino. Ela me disse que ele está até roubando para usar seu “braseado”.
— É isto que o mundo virou, amiga. A humanidade não tem futuro.
Drogas, violência, fome, guerras...o apocalipse está chegando...
Trepado no último andar o rapaz andava sobre o concreto com apenas uma perna, parecendo o saci-pererê; e mais uma vez pulou para trás saindo do campo de visão da multidão.
Nisto, voltou a aparecer e com um sorriso demoníaco nos lábios, pulou de ponta cabeça mergulhando no vazio, feito um passarinho sem asas. A multidão em choque e atordoada deixou escapar um som gutural, abafado e mórbido de espanto e incredulidade, mais ou menos assim: Ôooooooooooo...
O cara veio caindo, caindo, caindo...
A multidão em conjunto pensou: “Quando chegar ao chão será apenas uma massa disforme de sangue, carne e ossos triturados no asfalto quente!” Outros na multidão pensavam: “Tudo faz parte da vida, não é? E, ninguém vai se importar com mais um filho da... , louco, suicida e vagabundo que está querendo retornar para o seu começo...
Quem vai se importar com o sangue pela calçada?
Ninguém!
Sangue e mijo são a mesma coisa na cidade grande.
"Tudo faz parte da vida irmão".
Porém uns mais atentos, com visão de águia, perceberam que havia um rabo no rapaz.
E ele veio caindo em câmara lenta.
Muitos com os olhos fechados se benziam, inclusive o velho padre ajoelhado sobre sua batina branca e sagrada. E o jovem veio flutuando pelo espaço na iminência do seu fim.
Porém ao chegar a uns três metros do chão, uma corda elástica que o prendia por debaixo dos braços, arremessou-o para cima novamente.
Ele estava preso por uma corda de bungee junping.
E voltou novamente para o céu, balançando feito um iô iô humano.
Quando finalmente a corda parou de retesar-se, ele ficou dependurado, balançando como as folhas de uma palmeira imperial.
Na mão esquerda um cartaz onde se lia: Beba Star Light, A cerveja mais nova, mais leve e mais gostosa do Brasil.
Na mão direita ele tinha uma latinha, que ficou bebendo tranquilamente como se estivesse sentado na areia de uma praia no sul da Bahia, olhando as garotas passando de biquíni e ele comendo camarão.
Até onde vai chegar a propaganda destes fantásticos homens da publicidade, para atrair a atenção do consumidor e fazê-lo gastar até o último centavo disponível?
Isto, ninguém sabe...

publicado por universoinverso às 03:04 | link do post

Semi Expresso

Autor: Eduardo Andrade

A primavera chegava nas flores e nas árvores.
O sol quente castigava a pele de aço do ônibus vermelho da periferia.
Um homem saiu de dentro de uma pequena estação nos arredores da cidade de Belo Horizonte e com um sorriso largo foi em direção de seu brinquedo preferido.
Um ônibus...
Motorista ele era... nasceu, pensando que o mundo era uma bola, parecida com um volante.
Gostava de rodas e graxa.
Isto era o que ele sempre quis ser na vida.
Quando era pequeno lá no interior da Bahia sempre tomava a direção do carro de boi da mão do seu pai, para conduzir pelas estradas poeirentas aquela máquina movida a animais. Máquina de Pau e Pedra.
Tinha estudado o suficiente, não filosofia, para aprender as regras de trânsito.
Agora todo feliz da vida, tinha conseguido a carteira de motorista que lhe permitia conduzir uma linda charrete cor de sangue, na capital mineira.
Uma charrete vermelha, com cavalos movidos a diesel.
Feito uma Ferrari dos seus sonhos. Um coletivo da Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Ele veio andando e meio flutuando, entrou no carro , foi lá dentro pegou um martelo e saiu.
Caminhando em volta de seu brinquedo predileto, checou as rodas dando marteladas nos pneus para ver se todos estavam com a calibragem perfeita.
Voltou, entrou na construção de aço.
Seus bigodes eram grandes, parecia que até que tinha tentado comer um passarinho cru e as asas daquele pássaro tinham ficado pelo lado de fora de sua boca.
Entrou em seu carro vermelho que parecia uma Ferrari, em sonhos e acelerou.
Nisto, o trocador baixinho percebeu que estava sendo deixado para trás.
Comendo o último biscoito com a boca, faminta e cheia, o trocador largou tudo e saiu correndo, tentando alcançar o ônibus que já quase virava a esquina.
Gritando feito louco ele acompanhava a trajetória do ônibus.
— Pare... Pare... Pare... Dizia, apavorado.
O Motorista parecia não ouvir.
Porém na esquina do primeiro ponto havia um homem vestido de branco que deu o sinal para o ônibus parar. Um Pai de Santo?
E a jamanta parou.
O trocador veio correndo e alcançando o ônibus, gritando resfolegante, disse:
— Ohhh Bigode, você ia me deixando para trás...
Sua respiração esbaforida parecia fazer seu coração saltar para fora, pulsando sangue vermelho nas bochechas, brancas.
Todo trocador sonha em ser um motorista, um dia.
Então o trocador falou:
— Como é que você ia cobrar dos passageiros? Você ficou louco? Eu sou o trocador da empresa.
O motorista que parecia ter comido um pássaro preto pela metade, deu um sorriso sem graça e disse:
— Mesmo... tinha me esquecido de você. Estava tão pensando na vida que me esqueci de você...
O trocador fazendo uma cara contorcida, respondeu:
— Tá perdoado meu irmão.Vamos trabalhar.
Então pensou: “Se não fosse este maldito cartão que eles inventaram eu ia poder cuidar de minha família pelo resto da vida. Esta porcaria deste cartão faz os passageiros não usar dinheiro.”
— “Tecnologia é igual a merda.Aliás, eu estou virando uma pedaço de merda. (Boca suja este trocador tem, não é?)
Estou ficando BN...Bosta N'água.
Bosta sendo levada pela correnteza de um rio, a deriva.
Ele continuou pensando.
Estou f..., tenho que ser motorista”.
E o trocador continuou a pensar, mais outra vez:
“Merda... e no dia que os carros começarem a andar sozinhos? Bem, com fé em Deus neste dia eu já estarei morto.”
E o pensamento fluía:
“E meus filhos o que vão ser na vida? Não vai existir nem trocador e nem motorista! Como vai ser?
Futuro = Merda!”
Ficou mais tranqüilo pois em suas aulas de religião ele havia aprendido que o futuro a Deus pertence.
O Homem que havia dado o sinal para o ônibus parar, entrou num salto ágil para dentro e cumprimentou o motorista.
— Bom dia Bigode.
O motorista era conhecido em toda a região.
Talvez se não fosse motorista teria sido vereador, pois tinha o jeito de sorrir diretamente para as pessoas, um jeito estranho, mas sorria. Com dentes quebrados e cheio de cáries.
Mas sorria, sem tampar a boca.
Era o bigode!
Se tivesse entrado para o sindicato, com certeza já estaria no meio dos políticos, feito o Lula.
"Votem no bigode o homem que te conduz."
Outro presidente do Brasil.
Saudava todo mundo com alegria, como se nada nunca fosse acontecer ou acabar.
Mas sua principal felicidade era ser motorista.
Subindo mais uma rua e descendo outra, viu dois garotos batendo a mão para que o circular parasse.
O ônibus parou, a porta resfolegou e abriu.
O bigode e o sorriso do motorista se confundiam.
Os dois caras entraram.
Um pagou a passagem o outro saltou por cima da roleta.
Russa!
O homem de branco que havia entrado primeiro no coletivo estava sentado em uma poltrona, aliás cadeira de plástico, no meio do carro.
E ele pensou: “Este são os tipos de sujeitinhos que eu jamais pararei meu táxi para eles!
Era Taxista, apesar da roupa de Pai de Santo.
(Você pensou que ele, vestido de branco, era um Pai de Santo? Errou!).

E o cérebro dele continuou a pensar.
"Esses carinhas usando boné ao contrário e vestindo calças que ficam logo um pouco abaixo dos joelhos, são todos ladrões.
É pegar um cara destes, com calças mostrando as canelas finas e secas com este bonezinho ao contrário e eu com certeza, posso terminar com um cão de um revolver, pronto para ser disparado, mandando um projétil indecente, dentro do meu cérebro, quase, decente. Jamais quero o dinheiro de uns filhos da mãe destes.” Terminou de pensar.
E o ônibus continuava o seu dejavu, parando a cada ponto, abrindo e fechando as portas com a sincronia nas mãos do motorista.
Aquilo acontecia milhões de vezes dentro da cabeça do motorista.
Ele apesar de sempre ter desejado ser um condutor deste tipo de veículo, as vezes pensava:
“AHhhh,que vontade de aposentar!”
Só por causa das portas que tinha que abrir e fechar, em cada ponto.
Quando era criança lá no interior da Bahia, foi a primeira vez que tinha visto, um ônibus.
Bem, nem era mesmo um ônibus, era uma jardineira, um bicho antigo que tinha rodas.
Aquela frente quadrada, o vidro do para brisa, esmaecido pelo tempo e então, ele levou um susto, quando o farol feito um sol iluminou toda a noite e ele pode ver o bigode do motorista suado e cheio de poeira.
A partir daquele dia, sonhou em ser igual aquele cara.
Só viveu suportando todas as agruras da vida impregnada de pobreza, por causa disto.
Por causa daquele bigode.
O Bigode do motorista...
E ele quis ser igual.
O circular aproximou-se de um motel.
As luzes vermelhas, azuis e verdes do motel, piscando num ritmo frenético e quase sexual, atraiam a atenção do mais perplexo mortal.
Era como se copiassem a própria dinâmica do coito.
As Luzes sexuais.
Então um dos caras de canela fina, comentou:
— Ô Zé...Qualquer dias destes eu vou neste Motel.
Parecia um pouco drogado.
O outro então respondeu:
— Zé, o que é que você vai fazer lá? Procurar emprego?
— Não Zé, vou lá assistir uns filmes pornô.... deve ser tão bom! Disse sonhador...
— Zé você já tem filho pivete espalhado por toda favela!
E o delirante, respondeu:
— Mas eu gosto de lôra, lá na favela só tem neguinha.
Lôra na favela é tudo oxigenada...
Então o outro respondeu, com medo:
— Tô brincando mano... você é quem é o melhor, você é quem abastece...você é quem enche a cidade de loucura.
— Pode crer mano, se eu soltar foguete de tiro é erva. Se for foguete que suspira é pó.
E os carinhas da zona sul estão todos em minha mão, irmão.
Eles gostam. Eu sou cachaceiro. Droga deixa o cara bicha.
E o ônibus continuou sua maratona de abrir porta e fechar porta, pela existência de sua existência.
Antes de virar ferro velho.
Mas, dentro do ferro velho...
Um monte de animais entrando e saindo, indo direto para o abatedouro do trabalho, quase escravo.
Salário mínimo mané; diriam alguns.
Passando pela Lagoa da Pampulha, aliás, o esgoto da Pampulha. O Esgoto da Pampulha, só não fere os olhos porque é uma paisagem deslumbrante.
A água linda, deitada no silêncio das manhãs, faz com que dois sentidos se distanciem tanto um do outro.
O Olfato podre e os olhos maravilhados.
E o semi-expresso continuou sua viagem por aquele cheiro, "lindo".
Num ponto próximo a Universidade Federal de Minas Gerais, um cara bateu a mão.
E o ônibus, parou.
O bigode, motorista, brecou o carro num ímpeto, misturando todo mundo.
Garotas de programa, bêbados, homossexuais, homens íntegros, mas nem tanto, entretanto, o bigode do motorista, sorria. Ele era dono daquilo tudo. Ele controlava tudo.Do inicio ao fim!
Ele conduzia aquele povo. Ele era dono da alma e dos espíritos daquela gente.
Abriu e fechou a porta num relâmpago.
O homem que entrou, começou o discurso:
— Minhas Senhoras e Meus Senhores, estou aqui para vender canetas...
Eu pago minha passagem porque aprendi a ser honesto.
Algum tempo no passado distante, quando eu não tinha Jesus em meu coração, eu entrava no ônibus para assaltar todo mundo, primeiro, o trocador.
O trocador gordinho, sentiu uma pontada no peito, como se houvesse sido penetrado por uma faca de sangrar peixe.
Ele já tinha sido assaltado diversas vezes durante sua existência como agente de bordo(nome chique, não), e já tinha visto sua vovozinha pela greta, pois ela havia morrido a milhões de anos atrás, junto com os dinossauros.
Porém, sua vovozinha, sempre aparecia em seus sonhos.
Então o cara continuou o seu discurso:
— Gente, eu encontrei Jesus... Ele me salvou a vida. Hoje eu trabalho para um núcleo que recupera as pessoas das drogas. Nós não temos ajuda de ninguém. Nem a Prefeitura, nem o Estado e nem a Republica nos fornece qualquer incentivo. As Igrejas são falsas porque elas só ajudam quem dá o dizimo. Nós não recebemos nada, de nenhuma Igreja...
Ao falar isto o vendedor de canetas, não sabia que estava entrando em uma gaiola de cobras.
Um senhor, com as calças levantadas e repuxadas lá encima na bunda, olhou para ele e com voz de pastor, disse:
— Não venha me falar contra a religião. Eu nunca precisei vender canetas para sustentar uma boca de fumo de drogados. Você vende estas canetas para sustentar sua comunidade de drogados. Eu quero que vocês todos morram e que vão direto para o inferno.
O Vendedor recuou um pouco pálido e então disse:
— Meu senhor, você não está com Jesus.
— Estou sim seu filho de uma...(mãe?) você é que está precisando de Jesus.
O vendedor de canetas, agora com um ar de pura fúria de cocaína, nos olhos, retrucou:
— Que uma legião de demônios caia sobre ti...
O ambiente claustrofóbico do semi-circular vermelho, apontava uma temperatura vermelha no termômetro invisível, próxima dos 40 graus.
O sol parecia que depois de entrar pela janela, havia sentado-se em uma cadeira.
Lá no fundo, um homem com uma mala preta na mão e usando uma camisa azul brilhante, levantou-se e gritou:
— Salve Jesus gente, vamos parar com isto. Salve Jesus!!!
Os demônios do momento retrocederam. E ele continuou:
— Eu sou um Pastor e ordeno que vocês toquem as mãos e se tornem irmãos. (que rima linda!!!)
O Cara com a calça levantada lá encima, então disse:
— Jamais quero ser irmão de um viciado em drogas...
Ele falou isto parecendo uma flor desabrochando na cálida manhã.
O cara parecendo ser um pastor continuava tentando acalmar os ânimos.
E o bigode do motorista, voava flutuante ao volante...
de sua "Ferrari".
O vendedor de canetas agora parecia irado e ia partir para cima daquele viado de qualquer jeito.
E então pensou:
“Eu não preciso de arma de fogo para matar um cara destes.
A faca que eu tenho em minha cintura faz um estrago melhor. Gosto de matar gente como se estivesse matando porco.
Gosto de sentir o meu braço sendo forçado para frente e para trás em frenesi, penetrando a barriga e perfurando as tripas do sujeito.
Gosto de ver o sangue molhando o cimento, esguichando para fora, como se fosse a mangueira que molhava as plantas na casa de minha mãe, lá no interior de Minas.
Os olhos do porco ficando vítreos e depois do serviço feito, ainda gosto de colocar a mão na jugular do porco, para ver se ela está piscando. Se não estiver, serviço completo, "chefe".
Já fui matador de aluguel”. "Mas não posso fazer isto hoje, pois estou com Jesus" pensou.
"Agora meu chefe é Deus!" - Pensou de novo.
Só para não deixar você, caro leitor, cansado, não vou deixar ele pensar de novo!
Dentro do ônibus o clima estava mais tenso do que nunca.
Tinha gente querendo pular pela janela.
Alguns nauseados, mulheres quase histéricas...
Lá na frente, perto do motorista, começou uma confusão.
Uma mulher havia acabado de desmaiar por causa da bagunça.
O motorista bigode, vendo aquilo parou o ônibus e levantando-se solenemente de sua poltrona estofada, chegou até próximo da catraca, e falou com o trocador:
— O que aconteceu?
— Não sei... a dona ficou amarela, depois vermelha, verde, roxa e agora parece que está ficando preta..
— Meu Deus, é um infarto do miocárdio. — Falou o motorista.
Correu até os mecanismos do ônibus e apertou um botão, fazendo a porta se abrir.
Ele desceu correndo e atravessou a avenida quase sendo atropelado por outros carros malucos, que circulavam em alta velocidade pela cidade.
Seus bigodes voavam ao vento.
Correu feito um louco até onde havia uma agência bancária, que parecia ter sido acabada de ser assaltada, pois diversos carros da policia estavam estacionados em frente dela.
Lá de longe a população do ônibus podia ver seu bigode dizendo alguma coisa para os policiais.
Nisto ele voltou correndo e quase um outro carro o levou para comer capim pela raiz.
Ele pensou naquela possibilidade com um sorriso, pois sabia que depois de morto o seu bigode ia continuar crescendo.
Lá dentro do Semi-Expresso continuava uma verdadeira confusão.
Um homem vestido de branco, levantou-se de uma cadeira e disse em um tom quase arrogante:
— Saiam de perto da mulher. Eu sou enfermeiro e quero ver o que está acontecendo.
A multidão abriu espaço.
O calor continuava infernal.
Um sol de nove horas de horário de verão, mais parecia ser meio dia no inferno.
O cara de branco foi em direção da mulher, parecendo um anjo descendo as trevas.
Nisto a policia chegou!
O bigode abriu a porta de trás do ônibus com um sorriso, para os meganhas entrarem.
Primeiro entrou um policial que parecia ser Sargento.
A cabeça raspada, um bonezinho marrom dependurado para o lado direito, os olhos pretos de cachorro louco e ele foi em direção da mulher dizendo:
— Oi minha senhora, tudo bem?
A mulher recobrando os sentidos e um pouco assustada respondeu:
— Tudo bem
Sua voz parecia um tanto nervosa, era como se tivesse vendo o próprio lúcifer em sua frente.
Os dois Zés, traficantes, aproveitando a confusão, saíram pela porta traseira, de fininho, para não serem abordados pelos policiais.
O policial disse:
— Minha senhora, venha conosco... nós vamos te levar para o hospital.
— Não ando em carro de policia. - Respondeu ela.
— Quem estiver vendo, vai dizer que eu estou sendo levada para a cadeia
— Não minha senhora, só queremos te levar para o hospital, a senhora não está bem. — Retrucou o policial.
— Hospital? No carro da policia? Eu sou uma pessoa honrada, nunca fui presa e sou conhecida por todos na cidade.Sou apenas, uma pobre camelô e não vou entrar em viatura de tira, de jeito nenhum!
O policial foi em direção da mulher, ela tinha uma mala preta assentada sobre o seu colo. Seus olhos estavam injetados de pavor.
— Vamos minha senhora, o motorista parou o ônibus porque a senhora precisava de ajuda... estava ficando roxa. Me dê esta mochila!
Ao dizer assim, levou a mão para pegar a mochila da mulher.
A mulher, enfiou a mão dentro da mochila e sacou um revolver 38 e imediatamente apontou para o policial.
A mochila estava cheia de Maconha.
Ele vendo aquilo, pulou feito um gato selvagem, voando sobre a mulher e segurando-lhe o pulso, desviando a trajetória da bala para cima, em direção a roleta russa do ônibus, onde o motorista de bigode, se encontrava.
E houve um estampido.
A bala, em câmera lenta saiu do cano da arma e escolheu o motorista como o seu principal objetivo. Ele estava no lugar errado, na hora certa.
O motorista sentiu um fogo de vulcão, penetrar-lhe a boca.
O mundo ficou mais escuro e ele deu dois pequenos passos para trás e foi caindo recurvado, até bater a cabeça no acelerador de metal do ônibus.
O ônibus entendendo o comando, deu um solavanco e morreu num suspiro.
Em um sorriso fúnebre.
O motorista inconsciente começou a sonhar.
Isto é a morte? — pensou.
Então, imagens de toda sua vida, começaram a surgir em seu cérebro.
Ele, menino, lá no interior da Bahia, tocava os bois na carroça, numa noite escura e fria.
Seu pai tinha problemas nas pernas e sempre ficava sentado naquele carroção, enquanto ele guiava os bois.
Esta era uma ocasião especial.
Caminhando com lama até os joelhos, ele conduzia aquela carroça, feito um animal.
A chuva chegando, milhões de relâmpagos clareando o céu.
O ribombar dos trovões reverberando em seus ouvidos. Uma criança andando pelas estradas cheias de lama, lama da vida. Relâmpagos azuis explodiam em sua cabeça em descargas elétricas e em alta voltagem.
Isto é a morte?
Pensava...
Sim, talvez fosse...
Alguns anjos tocando trombones... e tambores...e Harpas...
Harpas azuis, feitas de pedacinhos de nuvens.
Mausoléus, sepulturas, sarcófagos, catacumbas, túmulos,
ossos, caveiras, pirâmides que são tumbas de faraós, com o
umbigo, apontando para o céu; eternidade...
Tudo misturado... Tudo junto.
A igrejinha do velho cemitério onde costumava caçar tatus....
Para matar a fome... no alto da colina.
Luzes, assombrações, medo, vontade de dormir para esquecer o passado e o futuro.
E o futuro chegou.
O Futuro era agora.
A morte.
Todo mundo vive e morre, não é?
Perguntava-se.
Então vou morrer...?
"Mas não... como?
É assim?
Sua alma queria chorar.
Mas chorar para que?
Isto é inevitável, pensava.
A bala penetrou-lhe a boca por cima do bigode de homem que tinha engolido um passarinho.
Um pássaro preto. Um pássaro da morte.
O gosto, gostoso de morrer, chegou perto de seus lábios...
Ele sorveu. Como se tomasse um sorvete, de morango.
Uma vontade de fazer sexo, para preservar sua espécie, acometeu-lhe.
"Mas para quê?" - Pensou.
Se tudo no fim é morte...para que procriar... tudo é morte.
E o mundo começou a ficar em preto e branco dentro de sua cabeça...
"O que o homem pode fazer, no momento que enfrenta a sua própria morte de frente?"
Pensava...
Nada... a morte era linda... com sua foice e seu capuz preto sobre a cabeça.
Ela não tinha rosto.... apenas o negro da noite, dentro do seus olhos, maliciosos.
O olhar da morte.
Um olhar lindo!
Uma ambulância chegou na cena louca que havia sido perpetrada por algum ser maléfico da existência.
Dois paramédicos, desceram da ambulância e foram em direção do ônibus.
Ao chegarem, depararam com o motorista e seus olhos vidrados.
Não havia mais vida para se buscar.
Havia pulso, mas os olhos estavam vítreos.
Eles colocaram o motorista na maca e o levaram embora da cena do crime.
Uma semana, depois, um médico entra em um quarto de hospital e fala;
— Olá bigode, tudo bem? — Incrível, a bala entrou em sua boca e saiu em sua nuca... e você está firme e forte. Vivo feito um sol forte de verão.
O velho bigode, ainda com os olhos doentes, responde:
— Pois é doutor... Acho que foi o meu bigode que me salvou. Minha mulher diz que ele é feito de arame farpado. Graças a Deus, só perdi um dente de ouro que roubei no cemitério da cidade em que nasci. Trabalhei algum tempo como coveiro.
Acho que o roubo no cemitério, me salvou a vida...
Ou, talvez, não.
Se eu não tivesse sido um ladrão, talvez nada tivesse acontecido.
Tirei um exemplo disto tudo, doutor.
Quem faz coisa errada, paga!
Mais dia ou menos dia, agente é cobrado.
Talvez se eu não tivesse roubado do cadaver, não estaria aqui neste hospital.
Eu quase paguei com minha vida, o roubo do dente de ouro de um morto, no cemitério lá de minha cidade.
O incrível, é que o dente de ouro sumiu.
Quem pegou aquele dente?
Ou ele, simplesmente desapareceu?
Agora só quero ser mais um desdentado do Brasil.
Disse sorrindo, com o bigode de passarinho, cortado, pela bala.
Só havia uma metade do grande bigode.
Assim é a vida... quem comete um crime, algum dia,
paga.
Será?

publicado por universoinverso às 03:03 | link do post

A CARTOMANTE
Autor: Machado de Assis 
HAMLET observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa 
filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. 
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas
começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... 
— Errou! interrompeu Camilo, rindo. 
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você 
sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria... 
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... 
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa. 
— Onde é a casa? 
— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; 
eu não sou maluca. 
Camilo riu outra vez: 
— Tu crês deveras nessas coisas? — perguntou-lhe. 
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia 
muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também 
ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. 
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; 
Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às 
cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagcm para a casa da cartomante. 
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. 
Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de segundo magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. 
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é 
seu amigo, falava sempre do senhor. 
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. 
Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. 
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de 
Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor. 
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de 
passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas 
principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. 
Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam. 
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se 
acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! 
Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços 
dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais 
que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de 
Vilela continuavam a ser as mesmas. 
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e 
pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. 
Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. 
As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para 
consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a 
cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. 
Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, 
tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum 
pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. 
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com 
Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível. 
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a... 
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, 
falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem , em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas. 
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem 
já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? 
Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas coisas com a notícia da véspera. 
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel. 
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, 
Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto. 
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam 
decoradas, diante dos olhos, fixas, ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe 
murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. 
Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada 
houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo. 
"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..." 
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não 
tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino. 
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, 
extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro 
tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à 
primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E 
inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça: 
— Anda! agora! empurra! vá! vá! 
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em 
outras coisas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." — E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar . Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas coisas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: 
"Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia... " Que perdia ele, se... ? 
Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo 
ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio. 
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas 
para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. 
Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as 
baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. 
Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: 
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto... 
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo. 
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não... 
— A mim e a ela, explicou vivamente ele. 
A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das 
cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas. três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela. curioso e ansioso. 
— As cartas dizem-me... 
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não 
tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita. . . Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta. 
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendedo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante. 
Esta levantou-se, rindo. 
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato... 
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse 
a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço. 
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar 
buscar? 
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela. 
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. 
O preço usual era dois mil-réis. 
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu... 
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com 
um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua,
enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. 
Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. 
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras coisas traziam outro aspecto, o céu estava 
límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou 
os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em 
demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo. 
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro. 
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer coisa; parece que 
formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: 
— Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz. 
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de 
outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, 
estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável. 
Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e 
entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. 
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há? 
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para 
uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

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DEMÔNIOS
Autor: Aluísio Azevedo

O meu quarto de rapaz solteiro era bem no alto; um mirante isolado, por cima do terceiro andar de uma grande e sombria casa de pensão da rua do Riachuelo com uma larga varanda de duas portas, aberta contra o nascente, e meia dúzia de janelas desafrontadas, que davam para os outros pontos, dominando os telhados da vizinhança.
Um pobre quarto, mas uma vista esplêndida! Da varanda, em que eu tinha as minhas queridas violetas, as minhas begônias e os meus tinhorões, únicos companheiros animados daquele meu isolamento e daquela minha triste vida de escritor, descortinava-se amplamente, nas encantadoras nuanças da perspectiva, uma grande parte da cidade, que se estendia por ali a fora, com a sua pitoresca acumulação de árvores e telhados, palmeiras e chaminés, torres de igreja e perfis de montanhas tortuosas, donde o sol através da atmosfera, tirava, nos seus sonhos dourados, os mais belos efeitos de luz. Os morros, mais perto, mais longe, erguiam-se alegres e verdejantes, ponteados de casinhas brancas, e lá se iam desdobrando, a fazer-se cada vez mais azuis e vaporosos, até que se perdiam de todo, muito além, nos segredos do horizonte, confundidos com as nuvens, numa só coloração de tintas ideais e castas.
Meu prazer era trabalhar aí, de manhã bem cedo, depois do café, olhando tudo aquilo pelas janelas abertas defronte da minha velha e singela mesa de carvalho, bebendo pelos olhos a alma dessa natureza inocente e namoradora, que me sorria, sem fatigar-me jamais o espírito, com a sua graça ingênua e com sua virgindade sensual.
E ninguém me viesse falar em quadros e estatuetas; não! queria as paredes nuas, totalmente nuas, e os móveis sem adornos, porque a arte me parecia mesquinha e banal em confronto com aquela fascinadora realidade, tão simples, tão despretensiosa, mas tão rica e tão completa.
O único desenho que eu conservava à vista, pendurado à cabeceira da cama, era um retrato de Laura, minha noiva prometida, e esse feito por mim mesmo, a pastel, representando-a com a roupa de andar em casa, o pescoço nu e o cabelo preso ao alto da cabeça por um laço de fita cor-de-rosa.

I
Quase nunca trabalhava à noite; às vezes, porém, quando me sucedia acordar fora de horas, sem vontade de continuar a dormir, ia para a mesa e esperava lendo ou escrevendo que amanhecesse.
Uma ocasião acordei assim, mas sem consciência de nada, como se viesse de um desses longos sonos de doente a decidir; desses profundos e silenciosos, em que não há sonhos, e dos quais, ou se desperta vitorioso para entrar em ampla convalescença, ou se sai apenas um instante para mergulhar logo nesse outro sono, ainda mais profundo, donde nunca mais se volta.
Olhei em torno de mim, admirado do longo espaço que me separava da vida e, logo que me senti mais senhor das minhas faculdades, estranhei não perceber o dia através das cortinas do quarto, não ouvir, como de costume, pipilarem as cambachirras defronte das janelas por cima dos telhados.
─ É que naturalmente ainda não amanheceu. Também não deve tardar muito... calculei, saltando da cama e enfiando o roupão de banho, disposto a esperar sua alteza o sol, assentado à varanda a fumar um cigarro.
Entretanto, coisa singular! parecia-me ter dormido em demasia; ter dormido muito mais da minha conta habitual. Sentia-me estranhamente farto de sono; tinha a impressão lassa de quem passou da sua hora de acordar e foi entrando, a dormir pelo dia e pela tarde, como só nos acontece depois de uma grande extenuação nervosa ou tendo anteriormente perdido muitas noites seguidas.
Ora, comigo não havia razão para semelhante coisa, porque, justamente naqueles últimos tempos, desde que estava noivo, recolhia-me sempre cedo e cedo me deitava. Ainda na véspera, lembro-me bem, depois do jantar saíra apenas a dar um pequeno passeio, fizera à família de Laura a minha visita de todos os dias, e às dez horas já estava de volta, estendido na cama, com um livro aberto sobre o peito, a bocejar. Não passariam de onze e meia quando peguei no sono.
Sim! não havia dúvida que era bem singular não ter amanhecido!... pensei, indo abrir uma das janelas da varanda.
Qual não foi, porém, a minha decepção quando, interrogando o nascente, dei com ele ainda completamente fechado e negro, e, abaixando o olhar, vi a cidade afogada em trevas e sucumbida no mais profundo silêncio!
─ Oh! Era singular, muito singular!
No céu as estrelas pareciam amortecidas, de um bruxulear difuso e pálido; nas ruas os 1ampiões mal se acusavam por longas reticências de uma luz deslavada e triste. Nenhum operário passava para o trabalho; não se ouvia o cantarolar de um ébrio, o rodar de um carro, nem o ladrar de um cão.
Singular! muito singular!
Acendi a vela e corri ao meu relógio de algibeira. Marcava meia-noite. Levei-o ao ouvido, com avidez de quem consulta o coração de um moribundo; já não pulsava: tinha esgotado toda a corda. Fi-lo começar a trabalhar de novo, mas as suas pulsações eram tão fracas, que só com extrema dificuldade conseguia eu distingui-las.
─ É singular! muito singular! repetia, calculando que, se o relógio esgotara toda a corda, era porque eu então havia dormido muito mais ainda do que supunha! eu então atravessara um dia inteiro sem acordar e entrara do mesmo modo pela noite seguinte.
Mas, afinal que horas seriam?...
Tornei à varanda, para consultar de novo aquela estranha noite, em que as estrelas desmaiavam antes de chegar a aurora. E a noite nada me respondeu, fechada no seu egoísmo surdo e tenebroso.
Que horas seriam?... Se eu ouvisse algum relógio da vizinhança!... Ouvir?... Mas se em torno de mim tudo parecia entorpecido e morto?...
E veio-me a dúvida de que eu tivesse perdido a faculdade de ouvir durante aquele maldito sono de tantas horas; fulminado por esta idéia, precipitei-me sobre o tímpano da mesa e vibrei-o com toda a força.
O som fez-se, porém, abafado e lento, como se lutasse com grande resistência para vencer o peso do ar.
E só então notei que a luz da vela, à semelhança do som do tímpano, também não era intensa e clara como de ordinário e parecia oprimida por uma atmosfera de catacumba.
Que significaria isto?... que estranho cataclismo abalaria o mundo?... que teria acontecido de tão transcendente durante aquela minha ausência da vida, para que eu, à volta, viesse encontrar o som e a luz, as duas expressões mais impressionantes do mundo físico, assim trôpegas e assim vacilantes, nem que toda a natureza envelhecesse maravilhosamente enquanto eu tinha os olhos fechados e o cérebro em repouso?!...
─ Ilusão minha, com certeza! que louca és tu, minha pobre fantasia! Daqui a nada estará amanhecendo, e todos estes teus caprichos, teus ou da noite, essa outra doida, desaparecerão aos primeiros raios do sol. O melhor é trabalharmos! Sinto-me até bem disposto para escrever! trabalhemos, que daqui a pouco tudo reviverá como nos outros dias! de novo os vales e as montanhas se farão esmeraldinas e alegres; e o céu transbordará da sua refulgente concha de turquesa a opulência das cores e das luzes; e de novo ondulará no espaço a música dos ventos; e as aves acordarão as rosas dos campos com os seus melodiosos duetos de amor! Trabalhemos! Trabalhemos!
Acendi mais duas velas, porque só com a primeira quase que me era impossível enxergar; arranjei-me a cozinha; fiz uma xícara de café bem forte, tomei-a, e fui para a mesa de trabalho.

II
Daí a um instante, vergado defronte do tinteiro, com o cigarro fumegando entre os dedos, não pensava absolutamente em mais nada, senão no que o bico da minha pena ia desfiando caprichoso do meu cérebro para lançar, linha a linha, sobre o papel.
Estava de veia, com efeito! As primeiras folhas encheram-se logo. Minha mão, a princípio lenta, começou, pouco a pouco, a fazer-se nervosa, a não querer parar, e afinal abriu a correr, a correr, cada vez mais depressa; disparando por fim às cegas, como um cavalo que se esquenta e se inflama na vertigem do galope. Depois, tal febre de concepção se apoderou de mim, que perdi a consciência de tudo e deixei-me arrebatar por ela, arquejante e sem fôlego, num vôo febril, num arranco violento, que me levava de rastros pelo ideal aos tropeções com as minhas doidas fantasias de poeta.
E páginas e páginas se sucederam. E as idéias, que nem um bando de demônios, vinham-me em borbotão, devorando-se umas às outras, num delírio de chegar primeiro; e as frases e as imagens acudiam-me como relâmpagos, fuzilando, já prontas e armadas da cabeça aos pés. E eu, sem tempo de molhar a pena, nem tempo de desviar os olhos do campo da peleja, ia arremessando para trás de mim, uma após outra, as tiras escritas, suando, arfando, sucumbindo nas garras daquele feroz inimigo que me aniquilava.
E lutei! e lutei! e lutei!
De repente acordo desta vertigem, como se voltasse de um pesadelo estonteado, com o sobressalto de quem, por uma briga de momento, se esquece do grande perigo que o espera. Dei um salto da cadeira; varri inquieto o olhar em derredor. Ao lado da minha mesa havia um monte de folhas de papel cobertas de tinta; as velas bruxuleavam a extinguir-se e o meu cinzeiro estava pejado de pontas de cigarro.
Oh! muitas horas deviam ter decorrido durante essa minha ausência, na qual o sono agora não fora cúmplice. Parecia-me impossível haver trabalhado tanto, sem dar o menor acordo do que se passava em torno de mim.
Corri à janela.
Meu Deus! o nascente continuava fechado e negro; a cidade deserta e muda. As estrelas tinham empalidecido ainda mais, e as luzes dos lampiões transpareciam apenas, através da espessura da noite, como sinistros olhos que me piscavam da treva.
Meu Deus! meu Deus, que teria acontecido?!...
Acendi novas velas, e notei que as suas chamas eram mais lívidas que o fogo-fátuo das sepulturas. Concheei a mão contra o ouvido e fiquei longo tempo a esperar inutilmente que do profundo e gelado silêncio lá de fora me viesse um sinal de vida.
Nada! Nada!
Fui à varanda; apalpei as minhas queridas plantas; estavam fanadas, e as suas tristes folhas pendiam molemente para fora dos vasos, como embambecidos membros de um cadáver ainda quente. Debrucei-me sobre as minhas estremecidas violetas e procurei respirar-lhes a alma embalsamada. Já não tinham perfume!
Atônito e ansioso volvi os olhos para o espaço. As estrelas, já sem contornos, derramavam-se na tinta negra do céu, como indecisas nódoas luminosas que fugiam lentamente.
─ Meu Deus! meu Deus, que iria acontecer ainda?
Voltei ao quarto e consultei o relógio. Marcava dez horas.
Oh! Pois já dez horas se tinham passado depois que eu abrira os olhos?... Por que então não amanhecera em todo esse tempo!... Teria eu enlouquecido?...
Já trêmulo, apanhei do chão as folhas de papel, uma por uma; eram muitas, muitas! E por melhor esforço que fizesse, não conseguia lembrar-me do que eu próprio nelas escrevera.
Apalpei as fontes; latejavam. Passei as mãos pelos olhos, depois consultei o coração; batia forte.
E só então notei que estava com muita fome e estava com muita sede.
Tomei a bilha d'água e esgotei-a de uma assentada. Assanhou-se-me a fome.
Abri todas as janelas do quarto, em seguida a porta, e chamei pelo criado. Mas a minha voz, apesar do esforço que fiz para gritar, saía frouxa e abafada, quase indistinguível.
Ninguém me respondeu, nem mesmo o eco.
─ Meu Deus! Meu Deus!
E um violento calafrio percorreu-me o corpo. Principiei a ter medo de tudo; principiei a não querer saber o que se tinha passado em torno de mim durante aquele maldito sono traiçoeiro; desejei não pensar, não sentir, não ter consciência de nada. O meu cérebro, todavia, continuava a trabalhar com a precisão do meu relógio, que ia desfiando os segundos inalteravelmente, enchendo minutos e formando horas.
E o céu era cada vez mais negro, e as estrelas cada vez mais apagadas, como derradeiros e tristes lampejos de uma pobre natureza que morre!
─ Meu Deus! meu Deus! o que seria?
Enchi-me de coragem; tomei uma das velas e, com mil precauções para impedir que ela se apagasse, desci o primeiro lance de escadas.
A casa tinha muitos cômodos e poucos desocupados. Eu conhecia quase todos os hóspedes. No segundo andar morava um médico; resolvi bater de preferência à porta dele.
Fui e bati; mas ninguém me respondeu.
Bati mais forte. Ainda nada.
Bati então desesperadamente, com as mãos e com os pés. A porta tremia, abalava, mas nem o eco respondia.
Meti ombros contra ela e arrombei-a. O mesmo silêncio. Espichei o pescoço, espiei lá para dentro. Nada consegui ver; a luz da minha vela iluminava menos que a brasa de um cigarro.
Esperei um instante.
Ainda nada.
Entrei.

III
O médico estava estendido na sua cama, embrulhado no lençol. Tinha contraída a boca e os olhos meio abertos.
Chamei-o; segurei-lhe o braço com violência e recuei aterrado, porque lhe senti o corpo rígido e frio. Aproximei, trêmulo, a minha vela contra o seu rosto imóvel; ele não abriu os olhos; não fez o menor gesto. E na palidez das faces notei-lhe as manchas esverdeadas de carne que vai entrar em decomposição.
E o meu terror cresceu. E apoderou-se de mim o medo do incompreensível; o medo do que não se explica; o medo do que não se acredita. E saí do quarto querendo pedir socorro, sem conseguir ter voz para gritar e apenas resbunando uns vagidos guturais e agonizantes.
E corri aos outros quartos, e já sem bater fui arrombando as portas que encontrei fechadas. A luz da minha vela, cada vez mais lívida, parecia, como eu, tiritar de medo.
Oh! que terrível momento! que terrível momento! Era como se em torno de mim o Nada insondável e tenebroso escancarasse, para devorar-me, a sua enorme boca viscosa e sôfrega. Por todas aquelas camas, que eu percorria como um louco, só tateava corpos enregelados e hirtos.
Não encontrava ninguém com vida; ninguém! Era a morte geral! a morte completa! uma tragédia silenciosa e terrível, com um único espectador, que era eu. Em cada quarto havia um cadáver pelo menos! Vi mães apertando contra o seio sem vida os filhinhos mortos; vi casais abraçados, dormindo aquele derradeiro sono, enleados ainda pelo último delírio de seus amores; vi brancas figuras de mulher estateladas no chão descompostas na impudência da morte; estudantes cor de cera debruçados sobre a mesa de estudo, os braços dobrados sobre o compêndio aberto, defronte da lâmpada para sempre extinta. E tudo frio, e tudo imóvel, como se aquelas vidas fossem de improviso apagadas pelo mesmo sopro; ou como se a terra, sentindo de repente uma grande fome, enlouquecesse para devorar de uma só vez todos os seus filhos.
Percorri os outros andares da casa: Sempre o mesmo abominável espetáculo!
Não havia mais ninguém! não havia mais ninguém! Tinham todos desertado em massa!
E por quê? E para onde tinham fugido aquelas almas, num só vôo, arribadas como um bando de aves forasteiras?...
Estranha greve! Mas por que não me chamaram, a mim também, antes de partir?... Por que me abandonaram sozinho entre aquele pavoroso despojo nauseabundo?...
Que teria sido, meu Deus? que teria sido tudo aquilo?... Por que toda aquela gente fugia em segredo, silenciosamente, sem a extrema despedida dos moribundos sem os gritos de agonia?... E eu, execrável exceção! por que continuava a existir, acotovelando os mortos e fechado com eles dentro da mesma catacumba?...
Então, uma idéia fuzilou rápida no meu espírito, pondo-me no coração um sobressalto horrível. Lembrei-me de Laura. Naquele momento estaria ela, como os outros, também, inanimada e gélida; ou, triste retardatária! ficaria a minha espera, impaciente por desferir o misterioso vôo?... Em todo o caso era para lá, para junto dessa adorada e virginal criatura, que eu devia ir sem perda de tempo; junto dela, viva ou morta, é que eu devia esperar a minha vez de mergulhar também no tenebroso pélago!
Morta?! Mas por que morta?... se eu vivia era bem possível que ela também vivesse ainda!...
E que me importava o resto, que me importavam os outros todos, contanto que eu a tivesse viva e palpitante nos meus braços?!...
Meu Deus! e se nós ficássemos os dois sozinhos na terra, sem mais ninguém, ninguém?... Se nos víssemos a sós, ela e eu, estreitados um contra o outro, num eterno egoísmo paradisíaco, assistindo recomeçar a criação em torno do nosso isolamento?... assistindo, ao som dos nossos beijos de amor, formar-se de novo o mundo, brotar de novo a vida, acordando toda a natureza, estrela por estrela, asa por asa, pétala por pétala?...
Sim! sim! Era preciso correr para junto dela!

IV
Mas a fome torturava-me cada vez mais furiosa. Era impossível levar mais tempo sem comer. Antes de socorrer o coração era preciso socorrer o estômago.
A fome! O amor! Mas, como todos os outros morriam em volta de mim e eu pensava em amor e eu tinha fome!... A fome, que é a voz mais poderosa do instinto da conservação pessoal, como o amor é a voz do instinto da conservação da espécie! A fome e o amor, que são a garantia da vida; os dois inalteráveis pólos do eixo em que há milhões de séculos gira misteriosamente o mundo orgânico!
E, no entanto, não podia deixar de comer antes de mais nada. Quantas horas teriam decorrido depois da minha última refeição?... Não sabia; não conseguia calcular sequer. O meu relógio, agora inútil, marcava estupidamente doze horas. Doze horas de quê?.... Doze horas!... Que significaria esta palavra?...
Arremessei o relógio para longe de mim, despedaçando-o contra a parede.
Ó meu Deus! se continuasse para sempre aquela incompreensível noite, como poderia eu saber os dias que se passavam?... Como poderia marcar as semanas e os meses?... O tempo é o sol; se o sol nunca mais voltasse, o tempo deixaria de existir!
E eu me senti perdido num grande Nada indefinido, vago, sem fundo e sem contornos.
Meu Deus! meu Deus! quando terminaria aquele suplício?
Desci ao andar térreo da casa, apressando-me agora para aproveitar a mesquinha luz da vela que, pouco a pouco, me abandonava também.
Oh! só a idéia de que era aquela a derradeira luz que me restava!... A idéia da escuridão completa que seria depois, fazia-me gelar o sangue. Trevas e mortos, que horror!
Penetrei na sala de jantar. À porta tropecei no cadáver de um cão; passei adiante. O criado jazia estendido junto à mesa, espumando pela boca e pelas ventas; não fiz caso. Do fundo dos quartos vinha já um bafo enjoativo de putrefação ainda recente.
Arrombei o armário, apoderei-me da comida que lá havia e devorei-a como um animal, sem procurar talher. Depois bebi, sem copo, uma garrafa de vinho. E, logo que senti o estômago reconfortado, e, logo que o vinho me alegrou o corpo, foi-se-me enfraquecendo a idéia de morrer com os outros e foi-me nascendo a esperança de encontrar vivos lá fora, na rua. Mal era que a luz da vela minguara tanto que agora brilhava menos que um pirilampo. Tentei acender outras. Vão esforço! a luz ia deixar de existir.
E, antes que ela me fugisse para sempre, comecei a encher as algibeiras com o que sobrou da minha fome.
Era tempo! era tempo! porque a miserável chama, depois de espreguiçar-se um instante, foi-se contraindo, a tremer, a tremer, bruxuleando, até sumir-se de todo, como o extremo lampejo do olhar de um moribundo.
E fez-se então a mais completa, a mais cerrada escuridão que é possível conceber. Era a treva absoluta; treva de morte; treva de caos; treva que só compreende quem tiver os olhos arrancados e as órbitas entupidas de terra.
Foi terrível o meu abalo, fiquei espavorido, como se ela me apanhasse de surpresa. Inchou-se-me por dentro o coração, sufocando-me a garganta; gelou-se-me a medula e secou-se-me a língua. Senti-me como entalado ainda vivo no fundo de um túmulo estreito; senti desabar sobre minha pobre alma, com todo o seu peso de maldição, aquela imensa noite negra e devoradora.
Imóvel, arquejei por algum tempo nesta agonia. Depois estendi os braços e, arrastando os pés, procurei tirar-me dali às apalpadelas.
Atravessei o longo corredor, esbarrando em tudo, como um cego sem guia, e conduzi-me lentamente até ao portão de entrada.
Saí.
Lá fora, na rua, o meu primeiro impulso foi olhar para o espaço; estava tão negro e tão mudo como a terra. A luz dos lampiões apagara-se de todo e no céu já não havia o mais tênue vestígio de uma estrela.
Treva! Treva e só treva!
Mas eu conhecia muito bem o caminho da casa de minha noiva, e havia de lá chegar, custasse o que custasse!
Dispus-me a partir, tateando o chão com os pés sem despregar das paredes as minhas duas mãos abertas na altura do rosto.
Passo a passo, venci até à primeira esquina. Esbarrei com um cadáver encostado às grades de um jardim; apalpei-o, era um polícia. Não me detive; segui adiante, dobrando para a rua transversal.
Começava a sentir frio. Uma densa umidade saía da terra, tornando aquela maldita noite ainda mais dolorosa. Mas não desanimei, prossegui pacientemente, medindo o meu caminho, palmo a palmo, e procurando reconhecer pelo tato o lugar em que me achava.
E seguia, seguia lentamente.
Já me não abalavam os cadáveres com que eu topava pelas calçadas. Todo o meu sentido se me concentrava nas mãos; a minha única preocupação era não desorientar-me e perder-me na viagem.
E lá ia, lá ia, arrastando-me de porta em porta, de casa em casa, de rua em rua, com a silenciosa resignação dos cegos desamparados.
De vez em quando, era preciso deter-me um instante, para respirar mais à vontade. Doíam-me os braços de os ter continuamente erguidos. Secava-se-me a boca. Um enorme cansaço invadia-me o corpo inteiro. Há quanto tempo durava já esta tortura? não sei; apenas sentia claramente que pelas paredes, o bolor principiava a formar altas camadas de uma vegetação aquosa, e que meus pés se encharcavam cada vez mais no lodo que o solo ressumbrava.
Veio-me então o receio de que eu, daí a pouco, não pudesse reconhecer o caminho e não lograsse por conseguinte chegar ao meu destino. Era preciso, pois, não perder um segundo; não dar tempo ao bolor e à lama de esconderem de todo o chão e as paredes.
E procurei, numa aflição, aligeirar o passo, a despeito da fadiga que me acabrunhava. Mas, ah! era impossível conseguir mais do que arrastar-me penosamente, como um verme ferido.
E o meu desespero crescia com a minha impotência e com o meu sobressalto.
Miséria! Agora já me custava até distinguir o que meus dedos tateavam, porque o frio os tornara dormentes e sem tato. Mas arrastava-me, arquejante, sequioso, coberto de suor, sem fôlego; mas arrastava-me.
Arrastava-me.
Afinal uma alegria agitou-me o coração: minhas mãos acabavam de reconhecer as grades do jardim de Laura. Reanimou-me a alma. Mais alguns passos somente, e estaria à sua porta!
Fiz um extremo esforço e rastejei até lá.
Enfim!
E deixei-me cair prostrado, naquele mesmo patamar, que eu, dantes, tantas vezes atravessara ligeiro e alegre, com o peito a estalar-me de felicidade.
A casa estava aberta. Procurei o primeiro degrau da escada e aí caí de rojo, sem forças ainda para galgá-la.
E resfoleguei, com a cabeça pendida, os braços abandonados ao descanso, as pernas entorpecidas pela umidade. E, todavia, ai de mim! as minhas esperanças feneciam ao frio sopro de morte que vinha lá de dentro.
Nem um rumor! Nem o mais leve murmúrio! Nem o mais ligeiro sinal de vida! Terrível desilusão aquele silêncio pressagiava!
As lágrimas começaram a correr-me pelo rosto também silenciosas.
Descansei longo tempo! depois ergui-me e pus-me a subir a escada, lentamente, lentamente.

V
Ah! Quantas recordações aquela escada me trazia!... Era aí, nos seus últimos degraus, junto às grades de madeira polida que eu, todos os dias, ao despedir-me de Laura, trocava com esta o silencioso juramento do nosso olhar. Foi aí que eu pela primeira vez lhe beijei a sua formosa e pequenina mão de brasileira.
Estaquei, todo vergado lá para dentro, escutando.
Nada!
Entrei na sala de visitas, vagarosamente, abrindo caminho com os braços abertos, como se nadasse na escuridão. Reconheci os primeiros objetos em que tropecei; reconheci o velho piano em que ela costumava tocar as suas peças favoritas; reconheci as estantes, pejadas de partituras, em que nossas mãos muitas vezes se encontraram, procurando a mesma música; e depois, avançando alguns passos de sonâmbulo, dei com a poltrona, a mesma poltrona em que ela, reclinada, de olhos baixos e chorosos ouviu corando o meu protesto de amor, quando, também pela primeira vez, me animei a confessar-lhe.
Oh! como tudo isso agora me acabrunhava de saudade!... Conhecemo-nos havia coisa de cinco anos; Laura então era ainda quase uma criança e eu ainda não era bem um homem. Vimo-nos um domingo, pela manhã, ao sairmos da missa. Eu ia ao lado de minha mãe, que nesse tempo ainda existia e...
Mas, para que reviver semelhantes recordações?... Acaso tinha eu o direito de pensar em amor?... Pensar em amor, quando em torno de mim o mundo inteiro se transformava em lodo?...
Esbarrei contra uma mesinha redonda, tateei-a, achei sobre ela, entre outras coisas, uma bilha d'água; bebi sequiosamente. Em seguida procurei achar a porta, que comunicava com o interior da casa; mas vacilei. Tremiam-me as pernas e arquejava-me o peito.
Oh! Já não podia haver o menor vislumbre de esperança! Aquele canto sagrado e tranqüilo, aquela habitação da honestidade e do pudor, também tinham sido varridos pelo implacável sopro!
Mas era preciso decidir-me a entrar. Quis chamar por alguém; não consegui articular mais do que o murmúrio de um segredo indistinguível.
Fiz-me forte; avancei às apalpadelas. Encontrei uma porta; abri-a. Penetrei numa saleta; não encontrei ninguém. Caminhei para diante; entrei na primeira alcova, tateei o primeiro cadáver.
Pelas barbas reconheci logo o pai de Laura. Estava deitado no seu leito; tinha a boca úmida e viscosa.
Limpei as mãos à roupa e continuei a minha tenebrosa revista.
No quarto imediato a mãe de minha noiva jazia ajoelhada defronte do seu oratório; ainda com as mãos postas, mas o rosto já pendido para a terra. Corri-lhe os dedos pela cabeça; ela desabou para o lado, dura como uma estátua. A queda não produziu ruído.
Continuei a andar.
O quarto que se seguia era o de Laura; sabia-o perfeitamente. O coração agitou-se-me sobressaltado; mas fui caminhando sempre com os braços estendidos e a respiração convulsa.
Nunca houvera ousado penetrar naquela casta alcova de donzela, e um respeito profundo imobilizou-me junto à porta, como se me pesasse profanar com a minha presença tão puro e religioso asilo do pudor. Era, porém, indispensável que eu me convencesse de que Laura também me havia abandonado como os outros; que me convencesse de que ela consentira que a sua alma, que era só minha, partisse com as outras almas desertoras; que eu disso me convencesse, para então cair ali mesmo a seus pés, fulminado, amaldiçoando a Deus e à sua loucura!
E havia de ser assim! Havia de ser assim, porque antes, mil vezes antes, morto com ela do que vivo sem a possuir!
Entrei no quarto. Apalpei as trevas. Não havia sequer o rumor da asa de uma mosca. Adiantei-me.
Achei uma estreita cama, castamente velada por ligeiro cortinado de cambraia. Afastei-o e, continuando a tatear, encontrei um corpo, mimoso e franzino todo fechado num roupão de flanela. Reconheci aqueles formosos cabelos cetinosos: reconheci aquela carne delicada e virgem; aquela pequenina mão, e também reconheci a aliança, que eu mesmo lhe colocara num dos dedos.
Mas oh! Laura, a minha estremecida Laura, estava tão fria e tão inanimada como os outros!
E um fluxo de soluços, abafados e sem eco, saiu-me do coração.
Ajoelhei-me junto à cama e, tal como fizera com as minhas violetas, debrucei-me sobre aquele pudibundo rosto já sem vida, para respirar-lhe o bálsamo da alma. Longo tempo meus lábios, que as lágrimas ensopavam, àqueles frios lábios se colaram, no mais sentido, no mais terno e profundo beijo que se deu sobre a terra.
- Laura! balbuciei tremente. Ó minha Laura! Pois será possível que tu, pobre e querida flor, casta companheira das minhas esperanças! será possível que tu também me abandonasses... sem uma palavra ao menos... indiferente e alheia como os outros?... Para onde tão longe e tão precipitadamente te partiste, doce amiga, que do nosso mísero amor nem a mais ligeira lembrança me deixaste?...
E cingindo-a nos meus braços, tomei-a contra o peito, a soluçar de dor e de saudade.
─ Não; não! disse-lhe sem voz. Não me separarei de ti, adorável despojo! Não te deixarei aqui sozinha, minha Laura! Viva, eras tu que me conduzias às mais altas regiões do ideal e do amor; viva, eras tu que davas asas ao meu espírito, energia ao meu coração e garras ao meu talento! Eras tu, luz de minha alma, que me fazias ambicionar futuro, glória, imortalidade! Morta, hás de arrastar-me contigo ao insondável pélago do Nada! Sim! Desceremos ao abismo, os dois, abraçados, eternamente unidos, e lá ficaremos para sempre, como duas raízes mortas, entretecidas e petrificadas no fundo da terra!
E, em vão tentando falar assim, chamei-a de todo contra meu corpo, entre soluços, osculando-lhe os cabelos.
Ó meu Deus! Estaria sonhando?... Dir-se-ia que a sua cabeça levemente se movera para melhor repousar sobre meu ombro!... Não seria ilusão do meu próprio amor despedaçado?...
─ Laura! tentei dizer, mas a voz não me passava da garganta.
E colei de novo os meus lábios contra os lábios dela.
─ Laura! Laura!
Oh! Agora sentira perfeitamente. Sim! sim! não me enganava! Ela vivia! Ela vivia ainda, meu Deus!

VI
E comecei a bater-lhe na palma das mãos, a soprar-lhe os olhos, a agitar-lhe o corpo entre meus braços, procurando chamá-la à vida.
E não haver uma luz! E eu não poder articular palavra! E não dispor de recurso algum para lhe poupar ao menos o sobressalto que a esperava quando recuperasse os sentidos! Que ansiedade! Que terrível tormento!
E, com ela recolhida ao colo, assim prostrada e muda, continuei a murmurar-lhe ao ouvido as palavras mais doces que toda a minha ternura conseguia descobrir nos segredos do meu pobre amor.
Ela começou a reanimar-se; seu corpo foi a pouco e pouco recuperando o calor perdido.
Seus lábios entreabriram-se já, respirando de leve.
- Laura! Laura!
Afinal senti as suas pestanas roçarem-me na face. Ela abria os olhos.
─ Laura!
Não me respondeu de nenhum modo, nem tampouco se mostrou sobressaltada com a minha presença. Parecia sonâmbula, indiferente à escuridão.
─ Laura! minha Laura!
Aproximei os lábios de seus lábios ainda frios, e senti um murmúrio suave e medroso exprimir o meu nome.
Oh! ninguém, ninguém pode calcular a comoção que se apossou de mim! Todo aquele tenebroso inferno por um instante se alegrou e sorriu.
E, nesse transporte de todo o meu ser, não entrava, todavia, o menor contingente dos sentidos. Nesse momento todo eu pertencia a um delicioso estado místico, alheio completamente à vida animal. Era como se me transportasse para outro mundo, reduzido a uma essência ideal e indissolúvel, feita de amor e bem-aventurança. Compreendi então esse vôo etéreo de duas almas aladas na mesma fé, deslizando juntas pelo espaço em busca do paraíso. Senti a terra mesquinha para nós, tão grandes e tão alevantados no nosso sentimento. Compreendi a divinal e suprema volúpia do noivado de dois espíritos que se unem para sempre.
─ Minha Laura! Minha Laura!
Ela passou-me os braços em volta do pescoço e trêmula uniu sua boca à minha, para dizer que tinha sede.
Lembrei-me da bilha d'água. Ergui-me e fui, às apalpadelas buscá-la onde estava.
Depois de beber, Laura perguntou-me se a luz e o som nunca mais voltariam. Respondi vagamente, sem compreender como podia ser que ela se não assustava naquelas trevas e não me repelia do seu leito de donzela.
Era bem estranho o nosso modo de conversar. Não falávamos, apenas movíamos com os lábios. Havia um mistério de sugestão no comércio das nossas idéias; tanto que, para nos entendermos melhor, precisávamos às vezes unir as cabeças, fronte com fronte.
E semelhante processo de dialogar em silêncio fatigava-nos, a ambos, em extremo. Eu sentia distintamente, com a testa colada à testa de Laura, o esforço que ela fazia para compreender bem o meu pensamento.
E interrogamos um ao outro, ao mesmo tempo, o que seria então de nós, perdidos e abandonados no meio daquele tenebroso campo de mortos? Como poderíamos sobreviver a todos os nossos semelhantes?...
Emudecemos por longo espaço, de mãos dadas e com as frontes unidas.
Resolvemos morrer juntos.
Sim! Era tudo que nos restava! Mas, de que modo realizar esse intento?... Que morte descobriríamos capaz de arrebatar-nos aos dois de uma só vez?...
Calamo-nos de novo, ajustando melhor as frontes cada qual mais absorto pela mesma preocupação.
Ela, por fim lembrou o mar. Sairíamos juntos à procura dele, e abraçados pereceríamos no fundo das águas. Ajoelhou-se e rezou, pedindo a Deus por toda aquela humanidade que partira antes de nós; depois ergueu-se, passou-me o braço na cintura, e começamos juntos a tatear a escuridão, dispostos a cumprir o nosso derradeiro voto.

VII
Lá fora a umidade crescia, liqüefazendo a crosta da terra. O chão tinha já uma sorvedora acumulação de lodo, em que o pé se atolava. As ruas estreitavam-se entre duas florestas de bolor que nasciam de cada lado das paredes.
Laura e eu, presos um ao outro pela cintura, arriscamos os primeiros passos e pusemo-nos a andar com extrema dificuldade, procurando a direção do mar, tristes e mudos, como os dois enxotados do Paraíso.
Pouco a pouco foi-nos ganhando uma profunda indiferença por toda aquela lama, em cujo ventre, nós, pobres vermes penosamente nos movíamos. E deixamos que os nossos espíritos, desarmados da faculdade de falar, se procurassem e se entendessem por conta própria, num misterioso idílio em que as nossas almas se estreitavam e se confundiam.
Agora, já não nos era preciso unir as frontes ou os lábios para trocar idéias e pensamentos. Nossos cérebros travavam entre si contínuo e silencioso diálogo, que em parte nos adoçava as penas daquela triste viagem para a Morte; enquanto os nossos corpos esquecidos, iam maquinalmente prosseguindo, passo a passo, por entre o limo pegajoso e úmido.
Lembrei-me das provisões que trazia na algibeira; ofereci-lhe; Laura recusou-as, afirmando que não tinha fome.
Deparei então que eu também não sentia agora a menor vontade de comer e, o que era mais singular, não sentia frio.
E continuamos a nossa peregrinação e o nosso diálogo. Ela, de vez em quando, repousava a cabeça no meu ombro, e parávamos para descansar.
Mas o lodo crescia, e o bolor condensava-se de um lado e de outro lado, mal nos deixando uma estreita vereda por onde, no entanto, prosseguíamos sempre, arrastando-nos abraçados.
Já não tateávamos o caminho, nem era preciso, porque não havia que recear o menor choque. Por entre a densa vegetação do mofo, nasciam agora da direita e da esquerda, almofadando a nossa passagem, enormes cogumelos e fungos, penugentos e aveludados, contra os quais escorregávamos como por sobre arminhos podres.
Àquela absoluta ausência do sol e do calor, formavam-se e cresciam esses monstros da treva, disformes seres úmidos e moles; tortulhos gigantescos cujas polpas esponjosas, como imensos tubérculos de tísico, nossos braços não podiam abarcar. Era horrível senti-los crescer assim fantasticamente, inchando ao lado e defronte uns dos outros como se toda a atividade molecular e toda a força agregativa e atômica que povoava a terra, os céus e as águas, viessem concentrar-se neles, para neles resumir a vida inteira. Era horrível, para nós, que nada mais ouvíamos, senti-los inspirar e respirar, como animais, sorvendo gulosamente o oxigênio daquela infindável noite.
Ai! desgraçados de nós, minha querida Laura! De tudo que vivia à luz do sol só eles persistiam; só eles e nós dois, tristes privilegiados naquela fria e tenebrosa desorganização do mundo!
Meu Deus! Era como se nesse nojento viveiro, borbulhante do lodo e da treva, viera refugiar-se a grande alma do Mal, depois de repelida por todos os infernos.
Respiramos um momento sem trocar uma idéia; depois, resignados, continuamos a caminhar para diante, presos à cintura um do outro, como dois míseros criminosos condenados a viver eternamente.

VIII
Era-nos já de todo impossível reconhecer o lugar por onde andávamos, nem calcular o tempo que havia decorrido depois que estávamos juntos. Às vezes se nos afigurava que muitos e muitos anos nos separavam do último sol; outras vezes nos parecia a ambos que aquelas trevas tinham-se fechado em torno de nós apenas alguns momentos antes.
O que sentíamos bem claro era que os nossos pés cada vez mais se entranhavam no lodo, e que toda aquela umidade grossa, da lama e do ar espesso, já nos não repugnava como a princípio e dava-nos agora, ao contrário, certa satisfação voluptuosa embeber-nos nela, como se por todos os nossos poros a sorvêssemos para nos alimentar.
Os sapatos foram-se-nos a pouco e pouco desfazendo, até nos abandonarem descalços completamente; e as nossas vestimentas reduziram-se a farrapos imundos. Laura estremeceu de pudor com a idéia de que em breve estaria totalmente despida e descomposta; soltou os cabelos para se abrigar com eles e pediu-me que apressássemos a viagem, a ver se alcançávamos o mar, antes que as roupas a deixassem de todo. Depois calou-se por muito tempo.
Comecei a notar que os pensamentos dela iam progressivamente rareando, tal qual sucedia aliás comigo mesmo.
Minha memória embotava-se. Afinal, já não era só a palavra falada que nos fugia; era também a palavra concebida. As luzes da nossa inteligência desmaiavam lentamente, como no céu as trêmulas estrelas que pouco a pouco se apagaram para sempre. Já não víamos; já não falávamos; íamos também deixar de pensar.
Meu Deus! era a treva que nos invadia! Era a treva, bem o sentíamos! que começava, gota a gota, a cair dentro de nós.
Só uma idéia, uma só, nos restava por fim: descobrir o mar, para pedir-lhe o termo daquela horrível agonia. Laura passou-me os braços em volta do pescoço, suplicando-me com o seu derradeiro pensamento que eu não a deixasse viver por muito tempo ainda.
E avançamos com maior coragem, na esperança de morrer.

IX
Mas, à proporção que o nosso espírito por tal estranho modo se neutralizava, fortalecia-se-nos o corpo maravilhosamente, a refazer-se de seiva no meio nutritivo e fertilizante daquela decomposição geral. Sentíamos perfeitamente o misterioso trabalho de revisceração que se travava dentro de nós; sentíamos o sangue enriquecer de fluídos vitais e ativar-se nos nossos vasos, circulando vertiginosamente a martelar por todo o corpo. Nosso organismo transformava-se num laboratório, revolucionado por uma chusma de demônios.
E nossos músculos robusteceram-se por encanto, e os nossos membros avultaram num contínuo desenvolvimento. E sentimos crescer os ossos, e sentimos a medula pulular engrossando e aumentando dentro deles. E sentimos as nossas mãos e os nossos pés tornarem-se fortes, como os de um gigante; e as nossas pernas encorparem, mais consistentes e mais ágeis; e os nossos braços se estenderem maciços e poderosos.
E todo o nosso sistema muscular se desenvolveu de súbito, em prejuízo do sistema nervoso que se amesquinhava progressivamente. Fizemo-nos hercúleos, de uma pujança de animais ferozes, sentindo-nos capazes cada qual de afrontar impávidos todos os elementos do globo e todas as lutas pela vida física.
Depois de apalpar-me surpreso, tateei o pescoço, o tronco e os quadris de Laura. Parecia-me ter debaixo das minhas mãos de gigante a estátua colossal de uma deusa pagã. Seus peitos eram fecundos e opulentos; suas ilhargas cheias e grossas como as de um animal bravio.
E assim refeitos pusemo-nos a andar familiarmente naquele lodo, como se fôramos criados nele. Também já não podíamos ficar um instante no mesmo lugar, inativos; uma irresistível necessidade de exercício arrastava-nos, a despeito da nossa vontade, agora fraca e mal segura. E, quanto mais se nos embrutecia o cérebro, tanto mais os nossos membros reclamavam atividade e ação; sentíamos gosto em correr, correr muito, cabriolando por ali a fora, e sentíamos ímpetos de lutar, de vencer, de dominar alguém com a nossa força.
Laura atirava-se contra mim, numa carícia selvagem e pletórica, apanhando-me a boca com os seus lábios fortes de mulher irracional e estreitando-se comigo sensualmente, a morder-me os ombros e os braços.
E lá íamos inseparáveis naquela nossa nova maneira de existir, sem memória de outra vida, amando-nos com toda a força dos nossos impulsos; para sempre esquecidos um no outro, como os dois últimos parasitas do cadáver de um mundo.
Certa vez, de surpresa, nossos olhos tiveram a alegria de ver.
Uma enorme e difusa claridade fosforescente estendia-se defronte de nós, a perder de vista. Era o mar.
Estava morto e quieto.
Um triste mar, sem ondas e sem soluços, chumbado à terra na sua profunda imobilidade de orgulhoso monstro abatido.
Fazia dó vê-lo assim, concentrado e mudo, saudoso das estrelas, viúvo do luar. Sua grande alma branca, de antigo lutador, parecia debruçar-se ainda sobre o resfriado cadáver daquelas águas silenciosas chorando as extintas noites, claras e felizes, em que elas, como um bando de náiades alegres, vinham aos saltos, tontas de alegria, quebrar na praia as suas risadas de prata.
Pobre mar! Pobre atleta! Nada mais lhe restava agora sobre o plúmbeo dorso fosforescente do que tristes esqueletos dos últimos navios, ali fincados, espectrais e negros, como inúteis e partidas cruzes de um velho cemitério abandonado.

X
Aproximamo-nos daquele pobre oceano morto. Tentei invadi-lo, mas meus pés não acharam que distinguir entre sua fosforescente gelatina e a lama negra da terra, tudo era igualmente lodo.
Laura conservava-se imóvel como que aterrada defronte do imenso cadáver luminoso. Agora, assim contra a embaciada lâmina das águas, nossos perfis se destacavam tão bem, como, ao longe, se destacavam as ruínas dos navios. Já nos não recordávamos da nossa intenção de afogar-nos juntos. Com um gesto chamei-a para meu lado. Laura, sem dar um passo, encarou-me com espanto, estranhando-me. Tornei a chamá-la; não veio.
Fui ter então com ela; ao ver-me, porém, aproximar, deu medrosa um ligeiro salto para trás e pôs-se a correr pela extensão da praia, como se fugisse a um monstro desconhecido.
Precipitei-me também, para alcançá-la. Vendo-se perseguida, atirou-se ao chão, a galopar, quadrupedando que nem um animal. Eu fiz o mesmo, e coisa singular! notei que me sentia muito mais à vontade nessa posição de quadrúpede do que na minha natural posição de homem.
Assim galopamos longo tempo à beira-mar; mas, percebendo que a minha companheira me fugia assustada para o lado das trevas, tentei detê-la, soltei um grito, soprando com toda a força o ar dos meus pulmões de gigante. Nada mais consegui do que dar um ronco de besta; Laura, todavia respondeu com outro. Corri para ela e os nossos berros ferozes perderam-se longamente por aquele mundo vazio e morto.
Alcancei-a por fim; ela havia caído por terra, prostrada de fadiga. Deitei-me ao seu lado, rosnando ofegante de cansaço. Na escuridão reconheceu-me logo; tomou-me contra o seu corpo e afagou-me instintivamente.
Quando resolvemos continuar a nossa peregrinação, foi de quatro pés que nos pusemos a andar ao lado um do outro, naturalmente sem dar por isso.
Então meu corpo principiou a revestir-se de um pêlo espesso. Apalpei as costas de Laura e observei que com ela acontecia a mesma coisa.
Assim era melhor, porque ficaríamos perfeitamente abrigados do frio, que agora aumentava.
Depois, senti que os meus maxilares se dilatavam de modo estranho, e que as minhas presas cresciam, tornando-se mais fortes, mais adequadas ao ataque, e que, lentamente, se afastavam dos dentes queixais; e que meu crânio se achatava; e que a parte inferior do meu rosto se alongava para a frente, afilando como um focinho de cão; e que meu nariz deixava de ser aquilino e perdia a linha vertical, para acompanhar o alongamento da mandíbula; e que enfim as minhas ventas se patenteavam, arregaçadas para o ar, úmidas e frias.
Laura, ao meu lado, sofria iguais transformações.
E notamos que, à medida que se nos apagavam uns restos de inteligência e o nosso tato se perdia, apurava-se-nos o olfato de um modo admirável, tomando as proporções de um faro certeiro e sutil, que alcançava léguas.
E galopávamos contentes ao lado um do outro, grunhindo e sorvendo o ar, satisfeitos de existir assim. Agora, o fartum da terra encharcada e das matérias em decomposição, longe de enjoar-nos, chamava-nos a vontade de comer. E os meus bigodes, cujos fios se inteiriçavam como cerdas de porco, serviam-me para sondar o caminho, porque as minhas mãos haviam afinal perdido de todo a delicadeza do tato.
Já não me lembrava por melhor esforço que empregasse, uma só palavra do meu idioma, como se eu nunca tivera falado. Agora, para entender-me com Laura, era preciso uivar; e ela me respondia do mesmo modo.
Não conseguia também lembrar-me nitidamente de como fora o mundo antes daquelas trevas e daquelas nossas metamorfoses, e até já me não recordava bem de como tinha sido a minha própria fisionomia primitiva, nem a de Laura. Entretanto, meu cérebro funcionava ainda, lá a seu modo, porque, afinal, tinha eu consciência de que existia e preocupava-me em conservar junto de mim a minha companheira, a quem agora só com os dentes afagava.
Quanto tempo se passou assim para nós, nesse estado de irracionais, é o que não posso dizer; apenas sei que, sem saudades de outra vida, trotando ao lado um do outro, percorríamos então o mundo perfeitamente familiarizados com a treva e com a lama, esfocinhando no chão, à procura de raízes, que devorávamos com prazer; e sei que, ao sentir-nos cansados, nos estendíamos por terra, juntos e tranqüilos, perfeitamente felizes, porque não pensávamos e porque não sofríamos.

XI
De uma feita, porém, ao levantar-me do chão, senti os pés trôpegos, pesados, e como que propensos a se entranharem por ele. Apalpei-os e encontrei as unhas moles e abafadas, a despregarem-se. Laura, junto de mim, observou em si a mesma coisa. Começamos logo a tirá-las com os dentes, sem experimentarmos a menor dor; depois passamos a fazer o mesmo com as das mãos; ás pontas dos nossos dedos logo que se acharam despojadas das unhas, transformaram-se numa espécie de ventosa do polvo, numas bocas de sanguessuga, que se dilatavam e contraíam incessantemente, sorvendo gulosas o ar e a umidade. Começaram-nos os pés a radiar em longos e ávidos tentáculos de pólipo; e os seus filamentos e as suas radículas eminhocaram pelo lodo fresco do chão, procurando sôfregos internar-se bem na terra, para ir lá dentro beber-lhes o húmus azotado e nutriente; enquanto os dedos das mãos esgalhavam, um a um, ganhando pelo espaço e chupando o ar voluptuosamente pelos seus respiradouros, fossando e fungando, irrequietos e morosos, como trombas de elefante.
Desesperado, ergui-me em toda a minha colossal estatura de gigante e sacudi os braços, tentando dar um arranco, para soltar-me do solo. Foi inútil. Nem só não consegui despregar meus pés enraizados no chão, como fiquei de mãos atiradas para o alto, numa postura mística como arrebatado num êxtase religioso, imóvel. Laura, igualmente presa à terra, ergueu-se rente comigo, peito a peito, entrelaçando nos meus seus braços esgalhados e procurando unir sua boca à minha boca.
E assim nos quedamos para sempre, aí plantados e seguros, sem nunca mais nos soltarmos um do outro, nem mais podermos mover com os nossos duros membros contraídos. E, pouco a pouco, nossos cabelos e nossos pêlos se nos foram desprendendo e caindo lentamente pelo corpo abaixo. E cada poro que eles deixavam era um novo respiradouro que se abria para beber a noite tenebrosa. Então sentimos que o nosso sangue ia-se a mais e mais se arrefecendo e desfibrinando, até ficar de todo transformado numa seiva linfática e fria. Nossa medula começou a endurecer e revestir-se de camadas lenhosas, que substituíam os ossos e os músculos; e nós fomos surdamente nos lignificando, nos encascando, a fazer-nos fibrosos desde o tronco até às hastes e às estipulas.
E os nossos pés, num misterioso trabalho subterrâneo, continuavam a lançar pelas entranhas da terra as suas longas e insaciáveis raízes; e os dedos das nossas mãos continuavam a multiplicar-se, a crescer e a esfolhar, como galhos de uma árvore que reverdece. Nossos olhos desfizeram-se em goma espessa e escorreram-nos pela crosta da cara, secando depois como resina; e das suas órbitas vazias começavam a brotar muitos rebentões viçosos. Os dentes despregaram-se, um por um, caindo de per si, e as nossas bocas murcharam-se inúteis, vindo, tanto delas, como de nossas ventas já sem faro, novas vergônteas e renovos que abriam novas folhas e novas brácteas. E agora só por estas e pelas extensas raízes de nossos pés é que nos alimentávamos para viver.
E vivíamos.
Uma existência tranqüila, doce, profundamente feliz, em que não havia desejos, nem saudades; uma vida imperturbável e surda, em que os nossos braços iam por si mesmos se estendendo preguiçosamente para o céu, a reproduzirem novos galhos donde outros rebentavam, cada vez mais copados e verdejantes. Ao passo que as nossas pernas, entrelaçadas num só caule, cresciam e engrossavam, cobertas de armaduras corticais, fazendo-se imponentes e nodosas, como os estalados troncos desses velhos gigantes das florestas primitivas.

XII
Quietos e abraçados na nossa silenciosa felicidade, bebendo longamente aquela inabalável noite, em cujo ventre dormiam mortas as estrelas, que nós dantes tantas vezes contemplávamos embevecidos e amorosos, crescemos juntos e juntos estendemos os nossos ramos e as nossas raízes, não sei por quanto tempo.
Não sei também se demos flor ou se demos frutos; tenho apenas consciência de que depois, muito depois, uma nova imobilidade, ainda mais profunda, veio enrijar-nos de todo. E sei que as nossas fibras e os nossos tecidos endureceram a ponto de cortar a circulação dos fluidos que nos nutriam; e que o nosso polposo âmago e a nossa medula se foi alcalinando, até de todo se converter em grés silicosa e calcária; e que afinal fomos perdendo gradualmente a natureza de matéria orgânica para assumirmos os caracteres do mineral.
Nossos gigantescos membros agora completamente desprovidos da sua folhagem, contraíram-se hirtos, sufocando os nossos poros; e nós dois, sempre abraçados, nos inteiriçamos numa só mole informe, sonora e maciça, onde as nossas veias primitivas, já secas e tolhidas, formavam sulcos ferruginosos, feitos como que do nosso velho sangue petrificado.
E, século a século, a sensibilidade foi-se-nos perdendo numa sombria indiferença de rocha. E, século a século, fomos de grés, de cisto, ao supremo estado de cristalização.
E vivemos, vivemos, e vivemos, até que a lama que nos cercava principiou a dissolver-se numa substância líquida, que tendia a fazer-se gasosa e a desagregar-se, perdendo o seu centro de equilíbrio; uma gaseificação geral, como devia ter sido antes do primeiro matrimônio entre as duas primeiras moléculas que se encontraram e se uniram e se fecundaram, para começar a interminável cadeia da vida, desde o ar atmosférico até ao sílex, desde o eozoon até ao bípede.
E oscilamos indolentemente naquele oceano fluido.
Mas, por fim, sentimos faltar-nos o apoio, e resvalamos no vácuo, e precipitamo-nos pelo éter.
E, abraçados a princípio, soltamo-nos depois e começamos a percorrer o firmamento, girando em volta um do outro, como um casal de estrelas errantes e amorosas, que vão espaço a fora em busca do ideal.

Ora fica aí leitor paciente, nessa dúzia de capítulos desenxabidos, o que eu, naquela maldita noite de insônia, escrevi no meu quarto de rapaz solteiro, esperando que Sua Alteza, o Sol, se dignasse de abrir a sua audiência matutina com os pássaros e com as flores.

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Os Olhos que Comiam Carne
Autor: Humberto de Campos

Na manhã seguinte à do aparecimento, nas livrarias, do oitavo e último volume da História do Conhecimento Humano, obra em que havia gasto catorze anos de uma existência consagrada, inteira, ao estudo e à meditação, o escritor Paulo Fernandes esperava, inutilmente, que o sol lhe penetrasse no quarto.

Estendido, de costas, na sua cama de solteiro, os olhos voltados na direção da janela que deixara entreaberta na véspera para a visita da claridade matutina, ele sentia que a noite se ia prolongando demais. O aposento permanecia escuro. Lá fora, entretanto, havia rumores de vida. Bondes passavam tilintando. Havia barulho de carroças no calçamento áspero. Automóveis buzinavam como se fosse dia alto.

E, no entanto, era noite, ainda. Atentou melhor, e notou movimento na casa. Distinguia perfeitamente o arrastar de uma vassoura, varrendo o pátio. Imaginou que o vento tivesse fechado a janela, impedindo a entrada do dia. Ergueu, então, o braço e apertou o botão da lâmpada. Mas a escuridão continuou. Evidentemente, o dia não lhe começava bem. Comprimiu o botão da campainha. E esperou.

Ao fim de alguns instantes, batem docemente à porta.

— Entra, Roberto.

O criado empurrou a porta, e entrou.

— Esta lâmpada está queimada, Roberto? - indagou o escritor, ao escutar os passos do empregado no aposento.

— Não, senhor. Está até acesa..

— Acesa? A lâmpada está acesa, Roberto? - exclamou o patrão, sentando-se repentinamente na cama.

— Está, sim, senhor. O doutor não vê que está acesa, por causa da janela que está aberta.

— A janela está aberta, Roberto? - gritou o homem de letras, com o terror estampado na fisionomia.

— Está, sim, senhor. E o sol está até no meio do quarto.

Paulo Fernando mergulhou o rosto nas mãos, e quedou-se imóvel, petrificado pela verdade terrível. Estava cego. Acabava de realizar-se o que há muito prognosticavam os médicos.

A notícia daquele infortúnio em breve se espalhava pela cidade, impressionando e comovendo a quem a recebia. A morte dos olhos daquele homem de quarenta anos, cuja mocidade tinha sido consumida na intimidade de um gabinete de trabalho, e cujos primeiros cabelos brancos haviam nascido à claridade das lâmpadas, diante das quais passara oito mil noites estudando, enchia de pena os mais indiferentes à vida do pensamento. Era uma força criadora que desaparecia. Era uma grande máquina que parava. Era um facho que se extinguia no meio da noite, deixando desorientados na escuridão aqueles que o haviam tomado por guia. E foi quando, de súbito, e como que providencialmente, surgiu na imprensa a informação de que o professor Platen, de Berlim, havia descoberto o processo de restituir a vista aos cegos, uma vez que a pupila se conservasse íntegra, e se tratasse, apenas, de destruição ou defeito do nervo óptico. E, com essa informação, a de que o eminente oculista passaria em breve pelo Rio de Janeiro, a fim de realizar uma operação desse gênero em um opulento estancieiro argentino, que se achava cego há seis anos e não tergiversara em trocar a metade da sua fortuna pela antiga luz dos seus olhos.

A cegueira de Paulo Fernando, com as suas causas e sintomas, enquadrava-se rigorosamente no processo do professor alemão: dera-se pelo seccionamento do nervo óptico. E era pelo restabelecimento deste, por meio de ligaduras artificiais com uma composição metálica de sua invenção, que o sábio de Berlim realizava o seu milagre cirúrgico. Esforços foram empregados, assim, para que Platen desembarcasse no Rio de Janeiro por ocasião de sua viagem a Buenos Aires.

Três meses depois, efetuava-se, de fato, esse desembarque. Para não perder tempo, achava-se Paulo Fernando, desde a véspera, no Grande Hospital das Clínicas. E encontrava-se já na sala de operações, quando o famoso cirurgião entrou, rodeado de colegas brasileiros, e de dois auxiliares alemães, que o acompanhavam na viagem, e apertou-lhe vivamente a mão.

Paulo Fernando não apresentava, na fisionomia, o menor sinal de emoção. O rosto escanhoado, o cabelo grisalho e ondulado posto para trás, e os olhos abertos, olhando sem ver: olhos castanhos, ligeiramente saídos, pelo hábito de vir beber a sabedoria aqui fora, e com laivos escuros de sangue, como reminiscência das noites de vigília. Vestia pijama de tricoline branca, de gola caída. As mãos de dedos magros e curtos seguravam as duas bordas da cadeira, como se estivesse à beira de um abismo, e temesse tombar na voragem.

Olhos abertos, piscando, Paulo Fernando ouvia, em torno, ordens em alemão, tinir de ferros dentro de uma lata, jorro d'água, e passos pesados ou ligeiros, de desconhecidos. Esses rumores eram, no seu espírito, causa de novas reflexões.

Só agora, depois de cego, verificara a sensibilidade da audição, e as suas relações com a alma, através do cérebro. Os passos de um estranho são inteiramente diversos daqueles de uma pessoa a quem se conhece. Cada criatura humana pisa de um modo. Seria capaz de identificar, agora, pelo passo, todos os seus amigos, como se tivesse vista e lhe pusessem diante dos olhos o retrato de cada um deles. E imaginava como seria curioso organizar para os cegos um álbum auditivo, como os de datiloscopia, quando um dos médicos lhe tocou no ombro, dizendo-lhe amavelmente:

— Está tudo pronto... Vamos para a mesa... Dentro de oito dias estará bom. .

O escritor sorriu, cético. Lido nos filósofos, esperava, indiferente, a cura ou a permanência na treva, não descobrindo nenhuma originalidade no seu castigo e nenhum mérito na sua resignação. Compreendia a inocuidade da esperança e a inutilidade da queixa. Levantou-se, assim, tateando, e, pela mão do médico, subiu na mesa de ferro branco, deitou-se ao longo, deixou que lhe pusessem a máscara para o clorofórmio, sentiu que ia ficando leve, aéreo, imponderável. E nada mais soube nem viu.

O processo Plateu era constituído por uma aplicação da lei de Roentgen, de que resultou o Raio-X, e que punha em contacto, por meio de delicadíssimos fios de "hêmera", liga metálica recentemente descoberta, o nervo seccionado. Completava-o uma espécie de parafina adaptada ao globo ocular, a qual, posta em contacto direto com a luz, restabelecida integralmente a função desse órgão. Cientificamente, era mais um mistério do que um fato. A verdade, era que as publicações européias faziam, levianamente ou não, referências constantes às curas miraculosas realizadas pelo cirurgião de Berlim, e que seu nome, em breve, corria o mundo, como o de um dos grandes benfeitores da Humanidade.

Meia hora depois as portas da sala de cirurgia do Grande Hospital de Clínicas se reabriam e Paulo Fernando, ainda inerte, voltava, em uma carreta de rodas silenciosas, ao seu quarto de pensionista. As mãos brancas, postas ao longo do corpo, eram como as de um morto. O rosto e a cabeça envoltos em gaze, deixavam à mostra apenas o nariz afilado e a boca entreaberta. E não tinha decorrido outra hora, e já o professor Platen se achava, de novo, a bordo, deixando a recomendação de que não fosse retirada a venda, que pusera no enfermo, antes de duas semanas.

Doze dias depois passava ele, de novo, pelo Rio, de regresso para a Europa. Visitou novamente o operado, e deu novas ordens aos enfermeiros. Paulo Fernando sentia-se bem. Recebia visitas, palestrava com os amigos. Mas o resultado da operação só seria verificado três dias mais tarde, quando se retirasse a gaze. O santo estava tão seguro do seu prestígio que ia embora sem esperar pela verificação do milagre.

Chega, porém, o dia ansiosamente aguardado pelos médicos, mais do que pelo doente. O Hospital encheu-se de especialistas, mas a direção só permitiu, na sala em que se ia cortar a gaze, a presença dos assistentes do enfermo. Os outros ficaram fora, no salão, para ver o doente, depois da cura.

Pelo braço de dois assistentes, Paulo Fernando atravessou o salão. Daqui e dali, vinham-lhe parabéns antecipados, apertos de mão vigorosos, que ele agradecia com um sorriso sem endereço. Até que a porta se fechou, e o doente, sentado em uma cadeira, escutou o estalido da tesoura, cortando a gaze que lhe envolvia o rosto.

Duas, três voltas são desfeitas. A emoção é funda, e o silêncio completo, como o de um túmulo. O último pedaço de gaze rola no balde. O médico tem as mãos trêmulas. Paulo Fernando, imóvel, espera a sentença final do Destino.

— Abra os olhos! - diz o doutor.

O operado, olhos abertos, olha em torno. Olha e, em silêncio, muito pálido, vai se pondo de pé. A pupila entra em contacto com a luz, e ele enxerga, distingue, vê. Mas é espantoso o que vê. Vê, em redor, criaturas humanas. Mas essas criaturas não têm vestimentas, não têm carne; são esqueletos apenas; são ossos que se movem, tíbias que andam, caveiras que abrem e fecham as mandíbulas! Os seus olhos comem a carne dos vivos. A sua retina, como os raios-X, atravessa o corpo humano e só se detém na ossatura dos que a cercam, e diante das coisas inanimadas! O médico, à sua frente, é um esqueleto que tem uma tesoura na mão! Outros esqueletos andam, giram, afastam-se, aproximam-se, como um bailado macabro!

De pé, os olhos escancarados, a boca aberta e muda, os braços levantados numa atitude de pavor, e de pasmo, Paulo Fernando corre na direção da porta, que adivinha mais do que vê, e abre-a. E o que enxerga, na multidão de médicos e de amigos que o aguardam lá fora, é um turbilhão de espectros, de esqueletos que marcham e agitam os dentes, como se tivessem aberto um ossuário cujos mortos quisessem sair. Solta um grito e recua. Recua, lento, de costa, o espanto estampado na face. Os esqueletos marcham para ele, tentando segurá-lo.

— Afastem-se ! Afastem-se — intima, num urro que faz estremecer a sala toda.

E, metendo as unhas no rosto, afunda-as nas órbitas, e arranca, num movimento de desespero, os dois glóbulos ensangüentados, e tomba escabujando no solo, esmagando nas mãos aqueles olhos que comiam carne, e que, devorando macabramente a carne aos vivos, transformavam a vida humana, em torno, em um sinistro baile de esqueletos...

publicado por universoinverso às 02:59 | link do post