Semi Expresso

Autor: Eduardo Andrade

A primavera chegava nas flores e nas árvores.
O sol quente castigava a pele de aço do ônibus vermelho da periferia.
Um homem saiu de dentro de uma pequena estação nos arredores da cidade de Belo Horizonte e com um sorriso largo foi em direção de seu brinquedo preferido.
Um ônibus...
Motorista ele era... nasceu, pensando que o mundo era uma bola, parecida com um volante.
Gostava de rodas e graxa.
Isto era o que ele sempre quis ser na vida.
Quando era pequeno lá no interior da Bahia sempre tomava a direção do carro de boi da mão do seu pai, para conduzir pelas estradas poeirentas aquela máquina movida a animais. Máquina de Pau e Pedra.
Tinha estudado o suficiente, não filosofia, para aprender as regras de trânsito.
Agora todo feliz da vida, tinha conseguido a carteira de motorista que lhe permitia conduzir uma linda charrete cor de sangue, na capital mineira.
Uma charrete vermelha, com cavalos movidos a diesel.
Feito uma Ferrari dos seus sonhos. Um coletivo da Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Ele veio andando e meio flutuando, entrou no carro , foi lá dentro pegou um martelo e saiu.
Caminhando em volta de seu brinquedo predileto, checou as rodas dando marteladas nos pneus para ver se todos estavam com a calibragem perfeita.
Voltou, entrou na construção de aço.
Seus bigodes eram grandes, parecia que até que tinha tentado comer um passarinho cru e as asas daquele pássaro tinham ficado pelo lado de fora de sua boca.
Entrou em seu carro vermelho que parecia uma Ferrari, em sonhos e acelerou.
Nisto, o trocador baixinho percebeu que estava sendo deixado para trás.
Comendo o último biscoito com a boca, faminta e cheia, o trocador largou tudo e saiu correndo, tentando alcançar o ônibus que já quase virava a esquina.
Gritando feito louco ele acompanhava a trajetória do ônibus.
— Pare... Pare... Pare... Dizia, apavorado.
O Motorista parecia não ouvir.
Porém na esquina do primeiro ponto havia um homem vestido de branco que deu o sinal para o ônibus parar. Um Pai de Santo?
E a jamanta parou.
O trocador veio correndo e alcançando o ônibus, gritando resfolegante, disse:
— Ohhh Bigode, você ia me deixando para trás...
Sua respiração esbaforida parecia fazer seu coração saltar para fora, pulsando sangue vermelho nas bochechas, brancas.
Todo trocador sonha em ser um motorista, um dia.
Então o trocador falou:
— Como é que você ia cobrar dos passageiros? Você ficou louco? Eu sou o trocador da empresa.
O motorista que parecia ter comido um pássaro preto pela metade, deu um sorriso sem graça e disse:
— Mesmo... tinha me esquecido de você. Estava tão pensando na vida que me esqueci de você...
O trocador fazendo uma cara contorcida, respondeu:
— Tá perdoado meu irmão.Vamos trabalhar.
Então pensou: “Se não fosse este maldito cartão que eles inventaram eu ia poder cuidar de minha família pelo resto da vida. Esta porcaria deste cartão faz os passageiros não usar dinheiro.”
— “Tecnologia é igual a merda.Aliás, eu estou virando uma pedaço de merda. (Boca suja este trocador tem, não é?)
Estou ficando BN...Bosta N'água.
Bosta sendo levada pela correnteza de um rio, a deriva.
Ele continuou pensando.
Estou f..., tenho que ser motorista”.
E o trocador continuou a pensar, mais outra vez:
“Merda... e no dia que os carros começarem a andar sozinhos? Bem, com fé em Deus neste dia eu já estarei morto.”
E o pensamento fluía:
“E meus filhos o que vão ser na vida? Não vai existir nem trocador e nem motorista! Como vai ser?
Futuro = Merda!”
Ficou mais tranqüilo pois em suas aulas de religião ele havia aprendido que o futuro a Deus pertence.
O Homem que havia dado o sinal para o ônibus parar, entrou num salto ágil para dentro e cumprimentou o motorista.
— Bom dia Bigode.
O motorista era conhecido em toda a região.
Talvez se não fosse motorista teria sido vereador, pois tinha o jeito de sorrir diretamente para as pessoas, um jeito estranho, mas sorria. Com dentes quebrados e cheio de cáries.
Mas sorria, sem tampar a boca.
Era o bigode!
Se tivesse entrado para o sindicato, com certeza já estaria no meio dos políticos, feito o Lula.
"Votem no bigode o homem que te conduz."
Outro presidente do Brasil.
Saudava todo mundo com alegria, como se nada nunca fosse acontecer ou acabar.
Mas sua principal felicidade era ser motorista.
Subindo mais uma rua e descendo outra, viu dois garotos batendo a mão para que o circular parasse.
O ônibus parou, a porta resfolegou e abriu.
O bigode e o sorriso do motorista se confundiam.
Os dois caras entraram.
Um pagou a passagem o outro saltou por cima da roleta.
Russa!
O homem de branco que havia entrado primeiro no coletivo estava sentado em uma poltrona, aliás cadeira de plástico, no meio do carro.
E ele pensou: “Este são os tipos de sujeitinhos que eu jamais pararei meu táxi para eles!
Era Taxista, apesar da roupa de Pai de Santo.
(Você pensou que ele, vestido de branco, era um Pai de Santo? Errou!).

E o cérebro dele continuou a pensar.
"Esses carinhas usando boné ao contrário e vestindo calças que ficam logo um pouco abaixo dos joelhos, são todos ladrões.
É pegar um cara destes, com calças mostrando as canelas finas e secas com este bonezinho ao contrário e eu com certeza, posso terminar com um cão de um revolver, pronto para ser disparado, mandando um projétil indecente, dentro do meu cérebro, quase, decente. Jamais quero o dinheiro de uns filhos da mãe destes.” Terminou de pensar.
E o ônibus continuava o seu dejavu, parando a cada ponto, abrindo e fechando as portas com a sincronia nas mãos do motorista.
Aquilo acontecia milhões de vezes dentro da cabeça do motorista.
Ele apesar de sempre ter desejado ser um condutor deste tipo de veículo, as vezes pensava:
“AHhhh,que vontade de aposentar!”
Só por causa das portas que tinha que abrir e fechar, em cada ponto.
Quando era criança lá no interior da Bahia, foi a primeira vez que tinha visto, um ônibus.
Bem, nem era mesmo um ônibus, era uma jardineira, um bicho antigo que tinha rodas.
Aquela frente quadrada, o vidro do para brisa, esmaecido pelo tempo e então, ele levou um susto, quando o farol feito um sol iluminou toda a noite e ele pode ver o bigode do motorista suado e cheio de poeira.
A partir daquele dia, sonhou em ser igual aquele cara.
Só viveu suportando todas as agruras da vida impregnada de pobreza, por causa disto.
Por causa daquele bigode.
O Bigode do motorista...
E ele quis ser igual.
O circular aproximou-se de um motel.
As luzes vermelhas, azuis e verdes do motel, piscando num ritmo frenético e quase sexual, atraiam a atenção do mais perplexo mortal.
Era como se copiassem a própria dinâmica do coito.
As Luzes sexuais.
Então um dos caras de canela fina, comentou:
— Ô Zé...Qualquer dias destes eu vou neste Motel.
Parecia um pouco drogado.
O outro então respondeu:
— Zé, o que é que você vai fazer lá? Procurar emprego?
— Não Zé, vou lá assistir uns filmes pornô.... deve ser tão bom! Disse sonhador...
— Zé você já tem filho pivete espalhado por toda favela!
E o delirante, respondeu:
— Mas eu gosto de lôra, lá na favela só tem neguinha.
Lôra na favela é tudo oxigenada...
Então o outro respondeu, com medo:
— Tô brincando mano... você é quem é o melhor, você é quem abastece...você é quem enche a cidade de loucura.
— Pode crer mano, se eu soltar foguete de tiro é erva. Se for foguete que suspira é pó.
E os carinhas da zona sul estão todos em minha mão, irmão.
Eles gostam. Eu sou cachaceiro. Droga deixa o cara bicha.
E o ônibus continuou sua maratona de abrir porta e fechar porta, pela existência de sua existência.
Antes de virar ferro velho.
Mas, dentro do ferro velho...
Um monte de animais entrando e saindo, indo direto para o abatedouro do trabalho, quase escravo.
Salário mínimo mané; diriam alguns.
Passando pela Lagoa da Pampulha, aliás, o esgoto da Pampulha. O Esgoto da Pampulha, só não fere os olhos porque é uma paisagem deslumbrante.
A água linda, deitada no silêncio das manhãs, faz com que dois sentidos se distanciem tanto um do outro.
O Olfato podre e os olhos maravilhados.
E o semi-expresso continuou sua viagem por aquele cheiro, "lindo".
Num ponto próximo a Universidade Federal de Minas Gerais, um cara bateu a mão.
E o ônibus, parou.
O bigode, motorista, brecou o carro num ímpeto, misturando todo mundo.
Garotas de programa, bêbados, homossexuais, homens íntegros, mas nem tanto, entretanto, o bigode do motorista, sorria. Ele era dono daquilo tudo. Ele controlava tudo.Do inicio ao fim!
Ele conduzia aquele povo. Ele era dono da alma e dos espíritos daquela gente.
Abriu e fechou a porta num relâmpago.
O homem que entrou, começou o discurso:
— Minhas Senhoras e Meus Senhores, estou aqui para vender canetas...
Eu pago minha passagem porque aprendi a ser honesto.
Algum tempo no passado distante, quando eu não tinha Jesus em meu coração, eu entrava no ônibus para assaltar todo mundo, primeiro, o trocador.
O trocador gordinho, sentiu uma pontada no peito, como se houvesse sido penetrado por uma faca de sangrar peixe.
Ele já tinha sido assaltado diversas vezes durante sua existência como agente de bordo(nome chique, não), e já tinha visto sua vovozinha pela greta, pois ela havia morrido a milhões de anos atrás, junto com os dinossauros.
Porém, sua vovozinha, sempre aparecia em seus sonhos.
Então o cara continuou o seu discurso:
— Gente, eu encontrei Jesus... Ele me salvou a vida. Hoje eu trabalho para um núcleo que recupera as pessoas das drogas. Nós não temos ajuda de ninguém. Nem a Prefeitura, nem o Estado e nem a Republica nos fornece qualquer incentivo. As Igrejas são falsas porque elas só ajudam quem dá o dizimo. Nós não recebemos nada, de nenhuma Igreja...
Ao falar isto o vendedor de canetas, não sabia que estava entrando em uma gaiola de cobras.
Um senhor, com as calças levantadas e repuxadas lá encima na bunda, olhou para ele e com voz de pastor, disse:
— Não venha me falar contra a religião. Eu nunca precisei vender canetas para sustentar uma boca de fumo de drogados. Você vende estas canetas para sustentar sua comunidade de drogados. Eu quero que vocês todos morram e que vão direto para o inferno.
O Vendedor recuou um pouco pálido e então disse:
— Meu senhor, você não está com Jesus.
— Estou sim seu filho de uma...(mãe?) você é que está precisando de Jesus.
O vendedor de canetas, agora com um ar de pura fúria de cocaína, nos olhos, retrucou:
— Que uma legião de demônios caia sobre ti...
O ambiente claustrofóbico do semi-circular vermelho, apontava uma temperatura vermelha no termômetro invisível, próxima dos 40 graus.
O sol parecia que depois de entrar pela janela, havia sentado-se em uma cadeira.
Lá no fundo, um homem com uma mala preta na mão e usando uma camisa azul brilhante, levantou-se e gritou:
— Salve Jesus gente, vamos parar com isto. Salve Jesus!!!
Os demônios do momento retrocederam. E ele continuou:
— Eu sou um Pastor e ordeno que vocês toquem as mãos e se tornem irmãos. (que rima linda!!!)
O Cara com a calça levantada lá encima, então disse:
— Jamais quero ser irmão de um viciado em drogas...
Ele falou isto parecendo uma flor desabrochando na cálida manhã.
O cara parecendo ser um pastor continuava tentando acalmar os ânimos.
E o bigode do motorista, voava flutuante ao volante...
de sua "Ferrari".
O vendedor de canetas agora parecia irado e ia partir para cima daquele viado de qualquer jeito.
E então pensou:
“Eu não preciso de arma de fogo para matar um cara destes.
A faca que eu tenho em minha cintura faz um estrago melhor. Gosto de matar gente como se estivesse matando porco.
Gosto de sentir o meu braço sendo forçado para frente e para trás em frenesi, penetrando a barriga e perfurando as tripas do sujeito.
Gosto de ver o sangue molhando o cimento, esguichando para fora, como se fosse a mangueira que molhava as plantas na casa de minha mãe, lá no interior de Minas.
Os olhos do porco ficando vítreos e depois do serviço feito, ainda gosto de colocar a mão na jugular do porco, para ver se ela está piscando. Se não estiver, serviço completo, "chefe".
Já fui matador de aluguel”. "Mas não posso fazer isto hoje, pois estou com Jesus" pensou.
"Agora meu chefe é Deus!" - Pensou de novo.
Só para não deixar você, caro leitor, cansado, não vou deixar ele pensar de novo!
Dentro do ônibus o clima estava mais tenso do que nunca.
Tinha gente querendo pular pela janela.
Alguns nauseados, mulheres quase histéricas...
Lá na frente, perto do motorista, começou uma confusão.
Uma mulher havia acabado de desmaiar por causa da bagunça.
O motorista bigode, vendo aquilo parou o ônibus e levantando-se solenemente de sua poltrona estofada, chegou até próximo da catraca, e falou com o trocador:
— O que aconteceu?
— Não sei... a dona ficou amarela, depois vermelha, verde, roxa e agora parece que está ficando preta..
— Meu Deus, é um infarto do miocárdio. — Falou o motorista.
Correu até os mecanismos do ônibus e apertou um botão, fazendo a porta se abrir.
Ele desceu correndo e atravessou a avenida quase sendo atropelado por outros carros malucos, que circulavam em alta velocidade pela cidade.
Seus bigodes voavam ao vento.
Correu feito um louco até onde havia uma agência bancária, que parecia ter sido acabada de ser assaltada, pois diversos carros da policia estavam estacionados em frente dela.
Lá de longe a população do ônibus podia ver seu bigode dizendo alguma coisa para os policiais.
Nisto ele voltou correndo e quase um outro carro o levou para comer capim pela raiz.
Ele pensou naquela possibilidade com um sorriso, pois sabia que depois de morto o seu bigode ia continuar crescendo.
Lá dentro do Semi-Expresso continuava uma verdadeira confusão.
Um homem vestido de branco, levantou-se de uma cadeira e disse em um tom quase arrogante:
— Saiam de perto da mulher. Eu sou enfermeiro e quero ver o que está acontecendo.
A multidão abriu espaço.
O calor continuava infernal.
Um sol de nove horas de horário de verão, mais parecia ser meio dia no inferno.
O cara de branco foi em direção da mulher, parecendo um anjo descendo as trevas.
Nisto a policia chegou!
O bigode abriu a porta de trás do ônibus com um sorriso, para os meganhas entrarem.
Primeiro entrou um policial que parecia ser Sargento.
A cabeça raspada, um bonezinho marrom dependurado para o lado direito, os olhos pretos de cachorro louco e ele foi em direção da mulher dizendo:
— Oi minha senhora, tudo bem?
A mulher recobrando os sentidos e um pouco assustada respondeu:
— Tudo bem
Sua voz parecia um tanto nervosa, era como se tivesse vendo o próprio lúcifer em sua frente.
Os dois Zés, traficantes, aproveitando a confusão, saíram pela porta traseira, de fininho, para não serem abordados pelos policiais.
O policial disse:
— Minha senhora, venha conosco... nós vamos te levar para o hospital.
— Não ando em carro de policia. - Respondeu ela.
— Quem estiver vendo, vai dizer que eu estou sendo levada para a cadeia
— Não minha senhora, só queremos te levar para o hospital, a senhora não está bem. — Retrucou o policial.
— Hospital? No carro da policia? Eu sou uma pessoa honrada, nunca fui presa e sou conhecida por todos na cidade.Sou apenas, uma pobre camelô e não vou entrar em viatura de tira, de jeito nenhum!
O policial foi em direção da mulher, ela tinha uma mala preta assentada sobre o seu colo. Seus olhos estavam injetados de pavor.
— Vamos minha senhora, o motorista parou o ônibus porque a senhora precisava de ajuda... estava ficando roxa. Me dê esta mochila!
Ao dizer assim, levou a mão para pegar a mochila da mulher.
A mulher, enfiou a mão dentro da mochila e sacou um revolver 38 e imediatamente apontou para o policial.
A mochila estava cheia de Maconha.
Ele vendo aquilo, pulou feito um gato selvagem, voando sobre a mulher e segurando-lhe o pulso, desviando a trajetória da bala para cima, em direção a roleta russa do ônibus, onde o motorista de bigode, se encontrava.
E houve um estampido.
A bala, em câmera lenta saiu do cano da arma e escolheu o motorista como o seu principal objetivo. Ele estava no lugar errado, na hora certa.
O motorista sentiu um fogo de vulcão, penetrar-lhe a boca.
O mundo ficou mais escuro e ele deu dois pequenos passos para trás e foi caindo recurvado, até bater a cabeça no acelerador de metal do ônibus.
O ônibus entendendo o comando, deu um solavanco e morreu num suspiro.
Em um sorriso fúnebre.
O motorista inconsciente começou a sonhar.
Isto é a morte? — pensou.
Então, imagens de toda sua vida, começaram a surgir em seu cérebro.
Ele, menino, lá no interior da Bahia, tocava os bois na carroça, numa noite escura e fria.
Seu pai tinha problemas nas pernas e sempre ficava sentado naquele carroção, enquanto ele guiava os bois.
Esta era uma ocasião especial.
Caminhando com lama até os joelhos, ele conduzia aquela carroça, feito um animal.
A chuva chegando, milhões de relâmpagos clareando o céu.
O ribombar dos trovões reverberando em seus ouvidos. Uma criança andando pelas estradas cheias de lama, lama da vida. Relâmpagos azuis explodiam em sua cabeça em descargas elétricas e em alta voltagem.
Isto é a morte?
Pensava...
Sim, talvez fosse...
Alguns anjos tocando trombones... e tambores...e Harpas...
Harpas azuis, feitas de pedacinhos de nuvens.
Mausoléus, sepulturas, sarcófagos, catacumbas, túmulos,
ossos, caveiras, pirâmides que são tumbas de faraós, com o
umbigo, apontando para o céu; eternidade...
Tudo misturado... Tudo junto.
A igrejinha do velho cemitério onde costumava caçar tatus....
Para matar a fome... no alto da colina.
Luzes, assombrações, medo, vontade de dormir para esquecer o passado e o futuro.
E o futuro chegou.
O Futuro era agora.
A morte.
Todo mundo vive e morre, não é?
Perguntava-se.
Então vou morrer...?
"Mas não... como?
É assim?
Sua alma queria chorar.
Mas chorar para que?
Isto é inevitável, pensava.
A bala penetrou-lhe a boca por cima do bigode de homem que tinha engolido um passarinho.
Um pássaro preto. Um pássaro da morte.
O gosto, gostoso de morrer, chegou perto de seus lábios...
Ele sorveu. Como se tomasse um sorvete, de morango.
Uma vontade de fazer sexo, para preservar sua espécie, acometeu-lhe.
"Mas para quê?" - Pensou.
Se tudo no fim é morte...para que procriar... tudo é morte.
E o mundo começou a ficar em preto e branco dentro de sua cabeça...
"O que o homem pode fazer, no momento que enfrenta a sua própria morte de frente?"
Pensava...
Nada... a morte era linda... com sua foice e seu capuz preto sobre a cabeça.
Ela não tinha rosto.... apenas o negro da noite, dentro do seus olhos, maliciosos.
O olhar da morte.
Um olhar lindo!
Uma ambulância chegou na cena louca que havia sido perpetrada por algum ser maléfico da existência.
Dois paramédicos, desceram da ambulância e foram em direção do ônibus.
Ao chegarem, depararam com o motorista e seus olhos vidrados.
Não havia mais vida para se buscar.
Havia pulso, mas os olhos estavam vítreos.
Eles colocaram o motorista na maca e o levaram embora da cena do crime.
Uma semana, depois, um médico entra em um quarto de hospital e fala;
— Olá bigode, tudo bem? — Incrível, a bala entrou em sua boca e saiu em sua nuca... e você está firme e forte. Vivo feito um sol forte de verão.
O velho bigode, ainda com os olhos doentes, responde:
— Pois é doutor... Acho que foi o meu bigode que me salvou. Minha mulher diz que ele é feito de arame farpado. Graças a Deus, só perdi um dente de ouro que roubei no cemitério da cidade em que nasci. Trabalhei algum tempo como coveiro.
Acho que o roubo no cemitério, me salvou a vida...
Ou, talvez, não.
Se eu não tivesse sido um ladrão, talvez nada tivesse acontecido.
Tirei um exemplo disto tudo, doutor.
Quem faz coisa errada, paga!
Mais dia ou menos dia, agente é cobrado.
Talvez se eu não tivesse roubado do cadaver, não estaria aqui neste hospital.
Eu quase paguei com minha vida, o roubo do dente de ouro de um morto, no cemitério lá de minha cidade.
O incrível, é que o dente de ouro sumiu.
Quem pegou aquele dente?
Ou ele, simplesmente desapareceu?
Agora só quero ser mais um desdentado do Brasil.
Disse sorrindo, com o bigode de passarinho, cortado, pela bala.
Só havia uma metade do grande bigode.
Assim é a vida... quem comete um crime, algum dia,
paga.
Será?

publicado por universoinverso às 03:03 | link do post