Da Boca do Povo

Autor: Eduardo Andrade

O centro de Belo Horizonte estava uma verdadeira confusão.
Um homem ameaçava pular do topo de um prédio.
Na esquina um vendedor de frutas, deixou uma senhora com o dinheiro na mão e saiu para ver o fato inusitado. Lá do alto do edifício o homem gritava alguma coisa incompreensível.
Um grupo de jovens vestidos em uniforme de colégio, parou para observar a cena.
Um velhinho que acabara de sair de um banco, meteu um pacote de dinheiro no bolso e aproximando-se de uma senhora, que parada olhava para cima meio extasiada com a boca aberta, comentou:
— Moro nesta cidade a 50 anos e sempre vi alguém querendo virar passarinho neste prédio. Até parece maldição. Então a mulher falou de um jeito triste e sem vida.
— Por que será que eles, os suicidas, adoram este lugar?
A pergunta ficou no ar, quando o velhinho abriu a boca e deixou cair a dentadura branca feito porcelana chinesa.
Nisto o grupo de jovens descontraídos, começou a gritar em coro: “Pula, Pula, Pula...”
No cruzamento da esquina os carros começaram a parar, businas pipocavam por todos os lados, de toda altura e de todo tipo. O semáforo ficou verde, no entanto os motoristas que viam a cena desciam dos seus carros para observar a iminência de um suicídio. Lá do alto, o homem levantou um braço onde exibia um cartaz com a foto de uma linda morena de biquíni.
O vendedor de frutas, falou com a senhora que permanecia segurando a nota de dez reais, com um ar abobalhado.
— Eu conheço aquele cara! Ele logo de manhã passou por aqui e me contou que sua namorada tinha resolvido posar nua para uma revista masculina, por isto ele ia se matar...Eu não acreditei, mas...
— Não acredito que só por uma bobagem desta, ele vai atentar contra sua própria vida, ó meu Jesus, que mundo cão. Disse a senhora com o dinheiro na mão. (êta riminha pobre).
A bagunça aumentava ainda mais. Um carro da policia chegou com sua sirene no limite que os tímpanos podiam suportar, piscando suas luzes frenéticas, como se houvesse um show de rock na manhã tropical.
De dentro pularam quatro policiais com cara de bulldogs.
O cara no alto do prédio havia acabado de sentar-se na beirada de concreto, balançando suas pernas gritando algo ainda mais incompreensível ainda. Um dos policiais olhando para cima com ar desconfiado, falou:
— Mais um louco ou drogado. Merda de mundo fodido que agente tem que enfrentar no dia a dia. O outro policial com cara de doutor vidente, disse:
— Eu conheço aquele individuo. A mãe dele era uma prostituta que se casou com um padre e ele deve estar com medo de se transformar em lobisomem, nas noites de lua cheia. Melhor a morte que viver assim, não é? (Este é da pá virada, não?)
O cara lá no alto, levantou-se, e ficando em pé na beirada de concreto, tirou a camisa e ficou girando-a sobre a cabeça, como se estivesse com uma corda pronto para laçar um boi selvagem nas nuvens. Então, pulou para trás e saiu do campo de visão da multidão lá embaixo.
Havia um burburinho.
Uns conversavam com os outros e os outros conversavam com todos.
Um vento suave balançou as folhas das árvores, fazendo cair folhas de outono.
Os minutos pareciam paralisar o momento.
Um pequeno fio de eternidade unia todos naquela praça faminta de circo.
Nisto, deu para perceber o sujeito lá em cima aproximar-se correndo e parar na borda do céu, lançando a camisa branca no vácuo.
A camisa veio descendo lentamente, respeitando as correntes de vento que percorriam o centro da cidade. A mulher, ainda com o dinheiro estendido na mão, olhando para cima e sem enxergar direito, pensou que o suicida havia pulado. Imediatamente, caiu no chão desmaiada, dura feito uma pedra de sabão. O vendedor de frutas para não perder a oportunidade e acrescentar mais um pouquinho ao seu lucro, agarrou a nota da mão dela e enfiou disfarçadamente no bolso, sem pensar em troco. Um dos policiais vendo aquilo veio correndo e falou:
— Você roubou o dinheiro desta senhora aqui no chão! O ambulante, com cara de pura inocência, retrucou:
— Não roubei não dotô, ela estava me devendo...olha a fruta lá na outra mão dela! O policial pareceu concordar e abaixando-se, colocou a mão em sua fronte para examiná-la. Levantou-se, e um tanto preocupado, acionou o rádio para chamar uma ambulância. A cada minuto, juntavam-se mais alguns transeuntes a multidão. De uma igreja, que ficava do outro lado da avenida, começaram a sair os fieis atraídos pela algazarra. O padre saiu primeiro e ao ver o homem lá no alto, fez o sinal da cruz para afastar o velho demônio, e ajoelhou-se. Lá no topo o homem parecia possesso e insano e voltou a gritar coisas, que da altura não chegavam até o povo lá embaixo. Uma senhora que tinha saído logo atrás do padre, meteu a mão em uma bolsa preta velha e carcomida que carregava sob o braço e tirando de dentro uns óculos, com lentes mais grossas que fundo de garrafa, colocou desajeitadamente a geringonça na cara e ficou meio míope olhando para o céu. Ao localizar o jovem olhou para amiga ao lado e sapecou uma frase curta e lamentosa:
— Oh minha virgem Maria. É o Toninho!!!
— Toninho qual? Perguntou sua amiga.
— Um vizinho do meu apartamento que tem problemas com drogas... coitado. A mãe não sabe mais o que fazer com o menino. Ela me disse que ele está até roubando para usar seu “braseado”.
— É isto que o mundo virou, amiga. A humanidade não tem futuro.
Drogas, violência, fome, guerras...o apocalipse está chegando...
Trepado no último andar o rapaz andava sobre o concreto com apenas uma perna, parecendo o saci-pererê; e mais uma vez pulou para trás saindo do campo de visão da multidão.
Nisto, voltou a aparecer e com um sorriso demoníaco nos lábios, pulou de ponta cabeça mergulhando no vazio, feito um passarinho sem asas. A multidão em choque e atordoada deixou escapar um som gutural, abafado e mórbido de espanto e incredulidade, mais ou menos assim: Ôooooooooooo...
O cara veio caindo, caindo, caindo...
A multidão em conjunto pensou: “Quando chegar ao chão será apenas uma massa disforme de sangue, carne e ossos triturados no asfalto quente!” Outros na multidão pensavam: “Tudo faz parte da vida, não é? E, ninguém vai se importar com mais um filho da... , louco, suicida e vagabundo que está querendo retornar para o seu começo...
Quem vai se importar com o sangue pela calçada?
Ninguém!
Sangue e mijo são a mesma coisa na cidade grande.
"Tudo faz parte da vida irmão".
Porém uns mais atentos, com visão de águia, perceberam que havia um rabo no rapaz.
E ele veio caindo em câmara lenta.
Muitos com os olhos fechados se benziam, inclusive o velho padre ajoelhado sobre sua batina branca e sagrada. E o jovem veio flutuando pelo espaço na iminência do seu fim.
Porém ao chegar a uns três metros do chão, uma corda elástica que o prendia por debaixo dos braços, arremessou-o para cima novamente.
Ele estava preso por uma corda de bungee junping.
E voltou novamente para o céu, balançando feito um iô iô humano.
Quando finalmente a corda parou de retesar-se, ele ficou dependurado, balançando como as folhas de uma palmeira imperial.
Na mão esquerda um cartaz onde se lia: Beba Star Light, A cerveja mais nova, mais leve e mais gostosa do Brasil.
Na mão direita ele tinha uma latinha, que ficou bebendo tranquilamente como se estivesse sentado na areia de uma praia no sul da Bahia, olhando as garotas passando de biquíni e ele comendo camarão.
Até onde vai chegar a propaganda destes fantásticos homens da publicidade, para atrair a atenção do consumidor e fazê-lo gastar até o último centavo disponível?
Isto, ninguém sabe...

publicado por universoinverso às 03:04 | link do post
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