TERRA VIVA (Visão Xamânica)

Autor: Eduardo Andrade 

O Velho da Montanha tinha um cachorro; para ser mais exato, era uma linda cachorra da raça pastor alemão. O pelo do animal era lindo, sedoso e oleoso feito cabelos de índias, bem tratados. Mas como acontece com todos os cachorros desta raça, ela tinha a saúde muito frágil.
Um dia o velho levantou cedo e saiu da sua casa de madeira para respirar o ar puro das montanhas pela manhã. Ao sair, deparou com sua bela cachorra sorridente. Ele percebia que aquele animal era melhor do que muito ser humano, só não sabia conversar.
Talvez fosse um pouquinho de loucura de sua parte, pois muitas vezes ele sentia o pensamento daquele animal.
Era como se ela pensasse sempre que o via:
“Meu amigo está chegando!”
Não foi apenas uma vez...
Se tivesse sido apenas uma vez, poderia ser fruto de sua imaginação, coincidência ou apenas divagação mental, de um homem que vivia sozinho no meio do mato, ouvindo apenas o murmúrio da correnteza nos córregos, o canto dos passarinhos e o assovio dos ventos passeando por entre os troncos das árvores.
Ao terminar o pensamento, ele percebeu um movimento brusco que a cachorra fez em volta de si mesma, como se quisesse pegar uma mosca invisível.
Ele pensou: “Ela deve estar brincando!” — Porém a cachorra continuou aquele movimento estranho.
O velho saindo de sua casa na manhã fria foi caminhando em direção da cachorra.
Ao aproximar-se, notou um grande buraco embaixo do rabo dela, por onde vertia sangue.
— Vem cá. Ele chamou-a como se desse uma ordem.
O robusto animal aproximou-se.
Ele segurou o rabo do bicho levantando-o e expondo o grande ferimento.
“Bicheira” — Pensou.
“Como surgiu tão de repente do nada...” Continuou a pensar.
“Amanhã vou a cidade, passo na oficina de carros, compro um óleo queimado e vou debelar esta maldita doença, trazida pelas moscas.”
O que ele não sabia é que alguém vestido de negro com uma foice na mão rondava aquele lugar.

A noite chegou envolvendo todo o ambiente.
A noite era linda no alto das montanhas. O velho sentado sozinho no batente da porta olhava as estrelas no céu azul-escuro e agradecia a dádiva divina de poder sentir a sístole e a diástole dando ritmo e bombeando o seu sangue que corria por dentro das suas velhas veias.

A cachorra aproximou-se e latiu num gemido.
Ela nunca tinha latido deste jeito. Mais uma vez ele sentiu aquela coisa dizendo para ele:
— Estou doente, muito doente.

Ele levantou-se inquieto e pensou que deveria ter ido a cidade logo pela manhã.
Por que deixou para o próximo dia?

Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje, afinal de contas, pode ser tarde demais.

Aquela coisa resmungando dentro dele estava tirando a sua paz de espírito.

Havia alguma coisa sofrida tirando o seu sossego.

Seria a cachorra?

Foi em direção do fogão de lenha e juntando algumas brasas com um pedaço de pau, começou a soprar dando vida ao fogo.
Pegou um bule velho com uma alça adaptada de madeira e colocou o café para esquentar. Virou as costas e foi sentar-se em um banquinho de jacarandá.
Meteu a mão no bolso, tirou um fumo de rolo e colocou metodicamente sobre a mesinha secular.
Com calma agarrou uma faca que tinha o cabo de chifre de boi e pensou nas histórias que aquele instrumento tinha para contar. Ela era uma herança de seu avô. Uma relíquia que já tinha ido até a guerra do Paraguai, quando a matança de mulheres e crianças tinha enchido de orgulho toda uma nação e foi um fator decisivo para a derrubada do Império e a criação da República.
Um pensamento fulminante veio para colocar fim ao seu lamento:
“Eles que começaram”.
“Eles que provocaram.”
“Ele, Solano Lopez, queria ser o imperador das Américas.”

“ Todo bom mineiro dá um boi para não entrar em uma briga, mas se entrar, então dá uma boiada inteira para nunca mais sair dela.”

Com firmeza em sua mão, começou a raspar a única palha de milho que restava. Depois de deixá-la preparada, picou o fumo e com maestria enrolou o cigarro. Foi ao fogão, encheu uma caneca de café quente, forte e amargo e num longo gole, o sentiu descer queimando pela garganta.

Café forte fazia-lhe sentir jovem novamente.

Depois de sorver todo o café, pegou o cigarro e acendeu em uma brasa e voltou para a porta em frente da casa sentando-se no batente de madeira. A cachorra de longe acompanhava os seus movimentos com os olhos inteligentes.

Ele sentou, matutou e novamente uma conversa tocou seu cérebro:

— Vou morrer, estou mal, o pior possível. Sinto os bichos corroendo minhas entranhas. Eles estão acabando comigo...

O pio de uma coruja avisou-lhe que já era hora de dormir. Quem sabe se o sono não lhe traria um belo dia cheio de sol e bons pensamentos. Afinal ir a cidade sempre era uma ótima curtição.
Ele não sabia que um pesadelo estava porvir.



O sonho começou com sua cachorra correndo brincalhona por entre as árvores da floresta atlântica. Ele no sonho estava jovem, cheio de vigor e energia.
Com sua espingarda no ombro andava para dentro da mata para caçar veados, porcos do mato, tatus, pacas ou qualquer outra espécie comestível.
Até mesmo onça pintada ele matava para arrancar o couro e vender na cidade.

De repente saltou em sua frente um enorme animal.
Ele imediatamente, num reflexo atirou.
Era sua cachorra que ele havia acertado.
Correndo desesperado, ao aproximar-se viu que o lado esquerdo do animal pegava fogo.
Indo em direção de uma árvore, cortou um galho cheio de folhas e voltou sobre sua sombra tentando apagar as labaredas.
Era tarde demais...
Quando olhou a cachorra estava em pé com os olhos vermelhos pingando sangue.
O fogo tinha consumido-lhe todo um lado.
Ela estava dividida em duas bandas exatamente iguais.
De um lado o seu pelo estava lindo e sedoso como sempre tinha sido.
Do outro lado dava para ver sua caveira expondo os seus ossos brancos de marfim.

O velho num salto semi-acrobático, pulou do seu catre e respirando fundo limpou o suor que lhe empapava o peito de cabelos quase que totalmente brancos.

“Graças a Deus.” Pensou com alívio.
Foi só um sonho!

Voltou a sentar-se sobre o lençol e talvez agora não conseguisse mais dormir.
Recostou-se e ficou pensando na vida.

Sua mulher, mãe de seus dez filhos tinha morrido a muitos anos, por causa de uma complicação no parto do que teria sido o seu décimo primeiro filho.

Os dois tinham sido enterrados na mesma vala, mãe e filho.

Depois ele nunca mais se engraçou com mulher nenhuma.
Vez ou outra quando a fraqueza de sua carne pedia, ele ia à cidade na casa da luz vermelha comer seu frango ensopado predileto, feito pela dona que dirigia a espelunca.
O frango dela como desculpa, atraia todos os homens da região.
Prefeitos, Vereadores, Fazendeiros, Canoeiros, Caminhoneiros, etc.

. Toda estirpe de gente já havia provado as delicias daquele prato, acompanhado pela cerveja sempre gelada e o perfume barato das moças daquele antro.

Nisto a manhã chegou.

Ele levantou-se arrumou sua bagagem num alforje aprontando para ir a cidade.
Primeiro iria ao rio que passava perto de sua cabana nas montanhas, para tirar o gosto da noite, do corpo.

Abriu a porta e a primeira coisa que viu foi sua cachorra caída no meio de uma poça de sangue.
Havia sangue por todos os cantos, no tronco das árvores, no chão de terra, no batente da porta, no caminho que dava para a estrada.
Parecia ter havido uma carnificina.
Ele aproximou-se e com os olhos nadando em lágrimas, começou a chorar.
Era um choro que partia lá do fundo da alma.
A floresta tinha virado um imenso cemitério.
Tudo parecia chorar.
Os bichos, o vento, o sol faziam coro com ele naquela manhã perdida no fundo dos tempos.
“Os homens não choram, deixe isto para as crianças.” — Tocou-lhe um pensamento.

Amargurado, ajoelho-se e pediu a Deus que cuidasse daquele espírito animal, tão lindo, tão dócil, tão inteligente, tão amigo, tão tudo...
O melhor amigo do homem, sua única companhia em tantos anos de retiro quase espiritual, tinha ido embora sem nem mesmo dar um latido de despedida.

Neste exato momento estava se sentindo tão velho, quase como se tivesse a mesma idade da terra.
Sufocado pelo silêncio, levantou-se.

A vida continua...

Procurando entender um sentido para morte, em uma divagação filosófica, entendeu que ela era uma parte da vida e que talvez a vida não tivesse significado algum se não houvesse esta tétrica palavra.

Sentindo-se extremamente cansado, entrou em seu barraco.

Não havia mais necessidade de ir a cidade, a não ser para encher a cara de cerveja e afogar suas mágoas no esquecimento provocado pelo álcool.

Deitou-se novamente e num instante voltou a sonhar.

No sonho o mundo parecia ser cheio de luz, uma luz brilhante indescritível em palavras.
As plantas os animais e todos os elementos da natureza pareciam comungar em conjunto com a força que move o universo.

Tudo tinha ligação entre si, todas as coisas eram interdependentes.

Da pequena pedra no fundo do rio, até o brilho das estrelas mais distantes eram ligadas entre si.

Uma chama.

Homens, pedras, plantas e água eram seres vivos e tinham todo respeito do criador, como se fossem iguais.

O sonho desvendando-lhe os mistérios continuou...

Um carro de boi vinha pela estrada, sobre ele um jovem forte de chapéu e bem aparentado, com uma vara tocava os bois pela trilha.

Na carroça uma linda mulher jovem e grávida estava sendo conduzida para a cidade para dar a luz ao seu primeiro filho.

O velho sentado na porta via a sua cachorra morta e a carroça simultaneamente.

O ruído da roda do carro de boi penetrava-lhe afiado, enfiando-se pelos ouvidos adentro e despertando-lhe o cérebro.

Era um sonho tão real...

Ele olhando aquela cena, percebeu que um fio de ouro começou a sair de sua cachorra morta.
O fio começou a crescer insuflado de luz e foi em direção da jovem e bela mulher grávida, penetrando-lhe o ventre.

Ele viu a mulher sorrindo.

Um sorriso cheio de felicidade saia pelos seus dentes brancos, feito as neves eternas do Everest.

O velho agora compreendia o que ligava todos os seres.

O jovem mancebo olhou para trás e viu sua mulher contorcendo-se de dor.
Pulou voando da carroça e foi atendê-la no trabalho de parto.

O velho acordou num sobressalto, ao chegar da janela lateral, ouviu um choro de criança.
O pai segurava uma bela menina em seus braços.
A mãe suada, não sabia se chorava ou se sorria.

O velho sorriu...
Por fim entendia que os pássaros, as árvores, as baratas e as moscas tinham uma sabedoria intrínseca e natural.
A sabedoria que os homens buscam nos livros e nas escolas é ensinada pela vida aos pequenos seres que se entrelaçam na dança da existência.

O velho finalmente compreendeu o significado de tudo.

Finalmente ele poderia morrer tranqüilo e feliz, pois sabia que a Terra em sua totalidade, era um ser vivo.

publicado por universoinverso às 03:05 | link do post
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