Mar da Tranquilidade. Autor: Eduardo Andrade. Buscando no sábio doutor Google, sobre viagens, ao digitar a pergunta, o motor de algoritmos dele me sugeriu: Viagem é com J ou com G? (escrevo viagem e viagar?). Ao digitar apenas 3 letras, ele sugeriu: Viajar é conhecer; viajar é a melhor coisa do mundo; viajar é renovar; viajar é aprender; viajar é realizar os sonhos; viajar é conhecimento; viajar é viver; viajar é renovar a alma...etcetera e tal. Porém, para mim, viajar é sinônimo de estressar. Eu viajo e vou chegar em um lugar onde não estão as coisas materiais que eu gosto e aprendi a conviver com elas: minha cama, aquela em que eu deito e ela já possui o meu formato, para eu me encaixar perfeitamente nela. Não tem meu computador com meus rascunhos, vídeos, rocks e muito mais; nem minha guitarra Fender afinada, com os pedais da Boss distorcidos, ligados na minha caixa de som Marshal; nem minha esteira para correr, a Speedo que é um verdadeiro cavalo de raça puro sangue; nem meu fogareiro elétrico que aquece feito um sol de verão e faz meu macarrão cozinhar e ficar gostoso feito um outro sol gostoso das manhãs; nem minha geladeira barulhenta que embala meus sonhos todas as noites sagradas; enfim, não tem nada com que eu já me acostumei a viver, quando eu chego no outro lado, no destino da viagem. Mas...gosto de mudar...mudar de uma vez por todas,- go forever -, como dizem os ingleses. Pego tudo coloco num caminhão e vou embora definitivamente, esquecendo o passado para trás. Mas quando chego para onde fui, chego com minhas malas e minhas cuias. Inclusive, com meus bichos de estimação. (sou apreciador dos bichos pois eles são os seres mais próximos de Deus, se existir Deus). Os Bichos são inocentes! Eles nunca tentam enganar e agem apenas pela sobrevivência. Mas, eu tive que viajar. Surgiram problemas para resolver e eu comprei uma passagem para quarta feira a noite, no meio de um ano bissexto, com partida para às 9:00 horas, no dia 13. No dia anterior já estava meio incomodado, aborrecido e chateado. Bebi umas cervejas para esquecer. No dia seguinte, dia da viagem, acordei de ressaca e chamei um taxi e lá fomos eu e minha mochila para a rodoviária. Desci, paguei o taxista e peguei minha mochila verde oliva de lona do Exército. A rodoviária estava vazia e tranquila, afinal, pouca gente viaja no meio de semana onde não há nenhum feriado à vista. Dia 13. (só faltava ser sexta feira). Eram 8:30 da noite. Olhei a passagem, o ônibus ia partir da plataforma G. Dirigi-me até lá. Desci as escadas e havia algumas pessoas na plataforma, mas o ônibus ainda não tinha chegado. Um vendedor ambulante ofereceu água. - Obrigado, respondi e pensei: O Brasil nesta crise hídrica e segundo estudos, 77% da água doce da Terra está armazenada nas geleiras do polo sul e polo norte; 3% nos rios, lagos e riachos, a que usamos para nossas necessidades, e..., 20%... sim, vinte por cento, nos lençóis freáticos do subsolo. Porque não aproveitar este aquífero em abundância do fundo do chão? Bem, esta é uma alternativa a ser pensada, inferi sozinho, como um arquiteto planejando e sonhando em criar novos projetos. (existe controvérsias quanto aos percentuais de água doce no planeta, portanto, são índices percentuais relativos; existem cidades que são abastecidas pelos lençóis freáticos...e o custo do abastecimento é 10% dos atuais gastos com abastecimentos de água, porque a água é limpa e não precisa ser tratada). Então o ônibus chegou. Estacionou e abriu a porta. Um trocador com cara de palhaço desceu, acompanhado de um motorista, cabeça quadrada. (quem nasce próximo a linha do equador, por causa da maior pressão atmosférica sobre o corpo, tem a anomalia chamada braquicéfalia, traduzindo: cabeça chata)-(Teoria). O motorista ficou na porta do ônibus e o trocador abriu o maleiro. Quem tinha mala levou para ser guardada. Eu peguei minha mochila coloquei nas costas e apresentei a passagem para o motorista. Ele olhou e eu entrei. Sentei no meio do ônibus. Sempre compro passagem no meio do ônibus do lado contrário ao motorista. A maioria dos acidentes destroem o lado em que o motorista está sentado, pois é o que dá para o tráfego da estrada aberta. (até isto eu gosto de avaliar; melhor prevenir do que remediar). Coloquei minha mochila no chão, entre os pés. Então, entrou uma senhora de cabelos brancos, com cara de morta, seguida por um senhor, praticamente morto, mas ainda em pé. Não era The Walking Dead! Era um filme da vida real. Ela me cumprimentou e eu retornei o cumprimento com um oi, bem sem graça e quase inaudível. O senhor balançou a cabeça para mim e eu repeti o gesto como se fosse um espelho virado para ele. Entraram umas 10 pessoas no ônibus, contando com o motorista e o trocador. As 9:00 horas em ponto o motorista cabeça quadrada deu partida e pegamos a estrada. As luzes da cidade começaram a esvanecer enquanto o ônibus saia da metrópole, indo pela periferia pobre, e... caímos na noite escura sem fim da estrada. Meia noite fizemos a primeira parada em um restaurante na beira da estrada. Desci. Estava com vontade de beber uma cerveja, mas como o ônibus não era executivo e não tinha banheiro, optei por um café com pão de queijo. Aliás, o café era uma água rala horrível e o pão de queijo mais parecia uma goma arábica para colar papeis escolares na parede. Minha língua ficou colada no céu da boca. A viagem continuou. Abri a janela e dei com os olhos nas estrelas lá do escuro do céu. Todas se movendo, passeando juntas com o ônibus. “Lindas” pensei. E, olhando para elas, cochilei. No meu breve sonho, vi uma moça linda, feita de estrelas, me olhando e me cuidando, com todo amor e carinho. Sonho sensual. Acordei, peguei o meu celular para conferir as horas e já eram 4 horas da madrugada. O tempo tinha voado. Senti que o ônibus estava subindo alguma serra. Então, ouvi um estouro, e os pneus rangendo com fúria no asfalto. Houve uma ausência de gravidade e estávamos caindo...por centésimos de segundos voamos em queda livre, revirando no ar, parecendo uma libélula bêbada, tentando pousar em um rio para comer fragmentos orgânicos de uma floresta tropical. Então houve um baque surdo e um galho de árvore entrou pela janela a poucos centímetros do meu rosto. Ficamos balançando. Eu só não voei dentro do ônibus, porque a primeira coisa que faço ao entrar em um veículo é colocar o cinto de segurança. ( o cinto de segurança já salvou muita gente, inclusive eu, até aqui hé hé hé). Bati o dedo na presilha do cinto e me soltei. Estava tudo escuro. Peguei meu celular e acendi a luz de emergência. Andei devagar pelo corredor, pois o ônibus balançava. Fui até a cabine do motorista. Lá um tronco tinha atravessado a janela espremendo-o no volante. A cabeça do trocador palhaço, tinha sido esmagada no vidro da janela e arremessada para fora, pela ponta do tronco da árvore, seca e assassina. Voltei com a luz cambaleante do celular, cambaleando por entre os destroços. O corredor estava cheio de sacolas, malas e corpos pelo chão. Eu não sentia nenhuma alma viva naquele momento. Então ocorreu uma explosão no fundo do ônibus e chamas clarearam todo o seu interior. Corri pisando sobre os corpos, sacolas e malas, até chegar à cabine do motorista, vi que o para brisa estava quebrado. Passei por cima do tronco da árvore que havia entrado pela janela, e colocando o meu celular entre os dentes, me dependurei procurando o para choque do ônibus para me apoiar. Senti pisar no para choque. Peguei o celular e iluminei. O ônibus estava no topo de uma árvore. Vi um galho grosso se estendendo em direção ao céu bem próximo de mim. Pulei nele feito um macaco agarrando um cacho de bananas. Segurei firme e comecei a descer. O ônibus começou a ser consumido pelas chamas, e a árvore ficou toda iluminada como se fosse uma árvore de natal, extemporânea. Fui descendo, me arranhando, me ralando e me ferindo. A luz do celular em minha boca me fez enxergar o chão. Uns 2 metros de altura eu pulei para o chão. Não tinha o que eu fazer para ajudar ninguém. Houve uma explosão magnifica, como se fosse uma estrela de gás explodindo. Melhor, um uma usina de processamento de petróleo em chamas... e eu corri. Um sol engolindo um sol. Corri por entre as árvores me chocando em algumas e escorregando pelo chão úmido e me arrastando feito um bicho sem patas. Mais outra explosão, mandou milhares de fragmentos pelo ar. Me escondi atrás de um tronco de árvore bem grande e vi detritos pegando fogo caindo do céu ao meu lado. Olhei por trás da árvore e vi o ônibus como uma grande bola de fogo iluminando toda a floresta. A árvore em que o ônibus “pousou” sobre ela, pegava fogo, também. Fagulhas subiam para as estrelas. Abaixei, suado, e fiz um prece. Cinzas e fumaça me cercavam por todos os lados. Levantei-me e comecei a caminhar. Andando sem rumo e sem direção no meio do mato da noite e sob o manto das copas das árvores. Andei até ver que o dia estava começando clarear. Sai do meio das árvores, e o dia clareava feito poesia no horizonte. Cheguei em um campo verde cheio de grama. Relva rasteira e molhada pelo orvalho da noite. Andando e pensando, pensei: “Não gosto de viajar”. Com o dia já bastante claro e o céu azul, segui uma picada, um caminho de terra batida por entre o mato. Se existia um caminho, existe alguém no fim dele. pensei com minhas premissas. Sentei no chão, peguei o celular para ligar para a policia. Bateria do celular morta!. Levantei e continuei a caminhar. E andei até vislumbrar o que parecia ser uma casa. Uma casinha no meio do verde das montanhas. Apressei o passo. Sentia que o corpo estava todo ardendo e esfolado, porém, não tinha nada quebrado. Graças ao meu Deus...o Sol..e Jesus e Budha e Confúcio e Maomé. Todos são Deuses para mim...até que a o sol se apagar... Chegando próximo a casa, cachorros me cumprimentaram, latindo. (Roberto Carlos). Pensei em cães selvagens, porém, para minha alegria eram cachorros vira latas. Um marrom, outro amarelo e um negro. Eles estavam mais com medo de mim, do que eu com medo deles. Então notei que havia um riozinho passando do lado da casa. Fui lá, tirei minha camisa 100% algodão e comecei a passar água em minha cabeça. Bem, apesar de serem cachorros sem pedigree, mantive um olho no gato e outro no peixe. Afinal, animal é animal. Mas eles ficaram apenas nos latidos mesmo. Cachorro que late não morde. (bem, pelo menos enquanto estão latindo!). Ouvi uma porta rangendo e um clique. Olhei para a casa e a porta se abriu. Um homem saiu com uma espingarda na mão. Olhei de longe. Então o homem falou: - Quem está ai? Eu me levantei e falei: - Senhor, eu estava em um ônibus que caiu na serra e pegou fogo. Eu sou o único sobrevivente! Ele respondeu: - Sobrevivente? É? Sobrevivente para roubar minhas galinhas e meus porcos? Eu disse nervoso: - Não senhor..é verdade o que estou dizendo. Não sou ladrão! Então ele falou: - Aproxime-se com as mãos para cima. Fui caminhando com a camisa pendurada no ombro, com as mãos para cima. Ao me aproximar percebi que o homem tinha um problema de vista. Um olho olhava para a direita e o outro para a esquerda, desfocados. Completamente zarolho. Ele me olhou atentamente com seus olhos bizarros e disse: - Você está todo arranhado...aproxime-se...pode abaixar as mãos. Me aproximei da cerca que rodeava a casa e olhando de volta para o caminho por onde tinha vindo, observei uma nuvem de fumaça escura ainda indo em direção ao céu. Levantei meu braço dolorido e mostrei para ele. - Olhe lá, senhor. Aquela é a fumaça do ônibus que caiu da serra e se incendiou. Eu estava dentro dele e sou o único sobrevivente. Ele olhou e baixou a espingarda. Olhando para dentro de sua casa, gritou: - João, acorde...venha aqui fora. Um rapaz claro com cabelos loiros apareceu no vão da porta. - Fala Pai. O velho, colocando a espingarda encostada na parede da casa disse. - Pegue sua moto e vá à cidade avisar a policia que houve um acidente na estrada. - Esta bem, Pai. Deixe eu lavar o rosto...mas a moto só tem gasolina para ir... Eu peguei minha carteira tirei uma nota de 100 pratas e mostrei para ele. Ele entrou na casa e logo saiu pelos fundos acelerando a moto. Parou perto de mim e pegou o dinheiro de minha mão. Os olhos dele brilhavam feito os olhos de uma fera. Acelerou a motocicleta novamente e passando por uma cancela aberta, pegou a estradinha de terra e desapareceu de nossa vista. O velho dos olhos esbugalhados veio caminhando em minha direção, agora amigavelmente... Então, na porta da casa, surgiu uma menina. Uma menina linda. Pensei no sonho que tinha tido dentro do ônibus com a moça das estrelas. Os cabelos castanhos desciam pelo seu pescoço, terminando em pontas aloiradas. As sobrancelhas grossas e os olhos verdes, ou seriam azuis? Não sei! O nariz bem delineado com as laterais salientes e as bochechas vermelhas. Lábios encantadores e grossos em um rosto angelical. Um ser saído dos contos de fadas. Então me perguntei dentro da minha cabeça: Como podia um ser tão lindo quanto aquele ter um pai tão esquisito e estranho? E o ancião disse: - Joana...faça um café forte e ponha pão de queijo para assar para o sobrevivente! Ela se virou e com a saia arrastando até o chão voltou-se para dentro de casa. O velho olhou para mim e pediu que o seguisse. Eu vesti minha camiseta de malha com uma estampa do Led Zeppelin e pensei na capa do disco Led Zeppelin IV. Um velho com um feixe de lenhas nas costas, apoiando-se em uma bengala. O velho daquele momento apoiava-se na espingarda. E seguindo-o, entramos em sua casa. Uma sala ampla com um fogão de lenha no canto foi o que mais me chamou a atenção. A menina mais linda do mundo estava fazendo o café. O velho puxou uma cadeira de madeira e sentou-se. Eu peguei outra e sentei-me, também. Então o velho falou: - Esta serra é muito perigosa, sempre acontecem acidentes nela. Pelo menos uma vez por mês. Os olhos dele pularam de um canto para o outro feito os olhos de um inseto e ele virando para sua filha, falou: - Joana, faça uma água com sal para passar nas feridas e hematomas do nosso convidado. O Sobrevivente. Ela deixou o fogão com a água fervendo e entrou por uma das duas portas que havia no interior da casa. Passados alguns minutos ela voltou com uma bacia e um pano extremamente branco. Chegou perto de mim e sem dizer nenhuma palavra, pegou minha camiseta e foi suspendendo e retirando-a do meu corpo. Se postou do meu lado e eu pude ver dois seios de menina-moça, maravilhosos. A bacia com uma água esbranquiçada ficou em minha frente. Ela pegou o pano e molhando na bacia, começou a passar em minhas feridas. Ardia feito os diabos. .. e o pai dela disse: - Água com sal é bom para isto... Ela continuou a molhar o pano, passando em minhas costas e no meu peito. Olhei para os olhos dela e vi que ela era um anjo. Então comecei a sentir um prazer estranho acontecer dentro de mim. Senti que estava ficando paralisado como se fosse uma estátua de pedra. Ou como um ser das cidades proibidas da bíblia, transformado em sal. Uma dormência gostosa e quente começou a tomar conta dos meus membros. Senti como se estivesse próximo de um orgasmo cerebral. Tentei movimentar os braços, mas os comandos do meu cérebro não alcançavam os meus braços, nem minhas pernas. Só conseguia movimentar do pescoço para cima... piscava e abria a boca, ressecada. Comecei a ofegar em êxtase. O que estava ocorrendo comigo? Era cansaço, sono, ou o quê? Meu Deus! E meu cérebro gritou: Que loucura! O velho se movimentou em minha frente e eu vi em câmera lenta ele abrir a boca e dizer: - Esta mistura é boa, rapaz...é uma mistura com venenos de cobras, aranhas, escorpiões e mais algumas folhas entorpecentes da floresta. Você vai ficar bom... Sobrevivente! Ele sorriu e no lugar da língua pude ver os dentes afiados e um ferrão como na língua de uma cobra cascavel. A menina mais linda do mundo, disse: - Pai..eu gostei dele...mas você nunca me deixa namorar...como eu vou casar? E continuou a passar a poção mágica em meu corpo..eu estava completamente imobilizado. Completamente bêbado, dopado e anestesiado. Apenas minha cabeça ainda pensava, alucinadamente...foi então que a porta se abriu e eu consegui ver o filho dele, o motoqueiro. Ele entrou e disse: - Pai...retirei todas as tábuas com pregos da estrada da serra! Não há mais nenhuma evidência... E vindo em minha direção, meteu a mão em meu bolso e arrancou a carteira. Depois de passar os dedos pelo dinheiro, falou: - Pai...ele é rico..aqui tem dinheiro para agente ficar sem fazer nada por pelo menos um ano. Minha cabeça girava...eu estava completamente entorpecido. O pai se levantou da cadeira e segurou em meu braço paralisado esquerdo e o garoto motoqueiro agarrou o meu braço morto direito, me colocando no chão. Tiraram minha roupa e começaram a me arrastar para fora da casa. Vi o céu lindo azulado com algumas nuvens prateadas com os reflexos do sol. E o velho gritou para sua filha: - Joana, faça uma massa forte de cimento com areia...uma quantidade suficiente para encobrir o corpo dele. Vamos colocar mais um na cisterna seca, até fechá-la. Ainda falta muito, mas agente chega lá. O poço seco tem que ser fechado! Os dois me arrastaram por entre árvores frondosas; pássaros cantavam melodias maravilhosas na manhã. Eu via tudo, porém, não sentia nada. Então chegamos em algum lugar que parecia ser...O Lugar! Fui levantado e observei a boca de um poço. Eles me seguraram e me soltaram, soltaram no vazio da existência...eu comecei a cair no espaço, senti caindo no espaço, num espaço de tempo que pareceu infinito. Meu corpo se chocou no fundo do lugar, mas eu não senti dor nenhuma. Senti apenas que com o forte impacto do meu corpo no fundo do poço, meus olhos foram catapultados para fora das cavidades do meu rosto e um olho caiu para o lado direito olhando para o escuro do nada, o outro caiu encima do meu peito, conectado pelas fibras do nervo ótico, e virado para o céu. E eu pude ver o poço escuro e a boca redonda do poço...e no alto, o céu azul mais lindo que eu já vi em minha vida, com apenas um olho. Então sobre o meu rosto começou a cair lama...senti o cheiro forte de cimento.. (arghhh.., odeio construções e odeio viajar...), o cimento frio entrou em minhas narinas fazendo com que minha respiração ficasse difícil. E mais cimento caindo e entrando em minha boca..e o céu azul começou a ficar negro, e finalmente apagou, quando mais cimento cobriu o meu olho vivo...vi minha vida em memorias voando dentro de minha cabeça. Minha mãe fazendo bolinho de arroz com feijão e me dando na boca para eu comer quando era criança e estava doente. Eu e meu irmão ouvindo um vinil do Led Zeppelin, fumando e bebendo escondido com a porta do quarto fechada. Eu e a galera correndo atrás da bola no campinho de futebol no fundo do quintal.. minha primeira namorada que não sabia que eu namorava com ela...minhas filhas...as mulheres....todas a mulheres do mundo...que criam a vida. E os negros começaram a tocar blues...preferia um rock...mas...? Vamos ouvir blues, ...estou triste, estou blues...o rock veio do blues! O rock me dá tesão... Não gosto de viajar...viajar...viajar... Viajar é preciso, Caetano? Então me recordei pelo último momento antes do breu final que se apoderou de minha existência. Lembrei do astronauta. Lembrei ou esqueci do astronauta? Acho que sim...estou tão confuso!!! Lembrei do que disse o astronauta: Pousamos no mar da tranquilidade!

publicado por universoinverso às 03:00 | link do post