Universo Paralelo. - Autor: Eduardo Andrade

O apartamento era grande, de cobertura. Grande confortável e localizado na melhor região de Belo Horizonte, no centro da Savassi. As paredes pintadas de branco, tinham quadros surrealistas, dependurados sobre um fundo branco ..viam-se velas acesas no caos, tempestades turbulentas nos céus, memórias de cérebros esquecidos no meio do deserto, algumas crianças brincando com pipas coloridas no infinito azul das nuvens...tudo isto nos quadros...do imenso salão de estar. Os 4 amigos se reuniram para partir para mais uma semana de aventuras. Walter Mota, filho de um Juiz aposentando, era o dono da cobertura. Ele tinha trazido os seus amigos motoqueiros para fazerem o cardápio da próxima viagem. Adoravam correr pelas estradas a 200 quilômetros por hora. Correr em suas motos nas estradas era o que lhes dava adrenalina melhor do que sexo para os seus corpos.

- E ai galera...como vai ser a próxima viagem?

Walter e seus olhos verdes e brilhantes feito um mar turbulento e cheio de conflitos na noite escura e cheio de estrelas mortas, olhava para os seus amigos. Ele tinha, pelo menos 2 metros de altura. Corpo atlético e cabelos negros encaracolados sobre um corpo moreno...se quisesse, poderia ter sido jogador de bola ao cesto. Um menino, o Tião com os olhos de besta, gritou:

- Vai ser ótima....para onde vamos, Walter?

O Tião, tinha um disfunção mental... os olhos encaixados em uma cabeça grande, saiam pelas laterais do rosto, e o seu sorriso era aberto, como não se preocupasse com nada deste mundo. Existia uma evidência tangível sobre a sua condição de ser humano. Era anormal. A cabeça grande e os olhos não se ajustavam no mundo do seu corpo. Tipo um cachorro louco.

Cosme, entrou pela porta da cobertura, junto com o seu irmão Damião. Eles eram irmãos gêmeos, univitelinos, os dois saídos do mesmo óvulo da mãe. Eram filhos de um coronel aposentado da Policia Militar...todos amigos do Walter... Os dois caminhavam calmamente e foram em direção da churrasqueira. Cosme tinha um pacote em sua mão. Não era um pacote de balas para crianças no dia de São Cosme e Damião. Não eram balinhas doces para as crianças. Eram balas psicodélicas. Chegando perto da churrasqueira, Damião tomou o pacote da mão de Cosme e espalhou um monte de cartelas em cima da mesa. Havia pontos de LSD...cartelas minúsculas e coloridas cheias da droga. Balas doces para os loucos. Cosme pegou um pequeno ponto de LSD e colocou na língua. Damião, também. Walter, levantou do banquinho de madeira e andou pelo quintal da cobertura. Estava doido. Tinha fumado um baseado. Pegou uma bala colorida azul e mergulhou na boca, dizendo:

- Tião babão....pegue um vinho para mim, cara!

O menino imediatamente saiu do terraço da cobertura e entrando pela porta da cozinha, foi até a geladeira pegar o vinho. Walter mascou o ponto colorido da bala. Pontos coloridos deliraram dentro de sua cabeça.

A cozinha era espetacular... uma geladeira imensa ficava no canto da sala e do lado dela um freezer branco, mais branco do que as nuvens do céu, depois de uma tempestade que parecia ter decretado o fim da humanidade. Depois que as tempestades passam o céu fica calmo e, cheio de nuvens; lá na imensidão do cosmo, apenas o céu azul. Depois das tempestades, vem a bonança. (não era assim que nossos avós diziam?). Tião abriu a geladeira e saiu com uma garrafa de um vinho cabernet na mão... Walter olhando disse: - Isso ai garoto...gosto de você porque cumpre minhas ordens. Você é meu escravo.

E sorriu um sorriso largo no queixo quadrado. Tião saiu da cozinha com uma garrafa na mão. Olhou para um lado e para outro lado procurando alguma ferramenta para abrir a garrafa... Walter foi até ele e tomou a garrafa de vinho. Pegou um pano e segurando a garrafa com o pano começou a socar o fundo da garrafa contra a parede de sua cobertura. Depois de alguns minutos a rolha da garrafa pulou para fora, como se fosse um espumante. Ele disse:

- Assim que se abre garrafa de vinho, cara!

E bebeu o liquido sorvendo entre os dentes e o liquido caia pelo lado de sua boca no chão e na camiseta de malha. Tião foi em direção dele e pediu para beber também.

- Walter, dá um gole ai?

Walter olhou para ele e entregou a garrafa pela metade...os outros dois irmãos estavam fumando maconha, depois de colocarem os pontos de LSD na língua. Então todos se reuniram no meio do apartamento de cobertura do Walter. Todos com sorrisos largos...abençoados pelas drogas... Cosme meio grogue falou com Walter:

- Cara...vamos viajar para onde este final de semana?

Walter levantou e passando  sua mão pelos cabelos longos e negros, disse:

- Norte de Minas Gerais, cara. Tive um sonho que parece que vai ajudar. Sonhei com uma estrada linda cheia de terra, poeira e estrelas...nós vamos para lá. Pesquisei no Google e Januária é uma boa cidade para agente ir...tem um rio..o São Francisco. E olhou para o Tião. Tião babão tinha um problema...ele estava babando no chão..a baba branca e espessa caia de sua boca. Ele não podia conversar que a baba caia pelo chão. Ele ficou branco e, tremendo caiu no chão do terraço. Walter correu até ele e pegando-o pela gola da camisa, começou a sacudi-lo...

- Cara...cara..cara...você está tendo um ataque – Walter gritou.

Tião se balançava no chão tomado por uma overdose de epilepsia. Walter abaixou-se, pegou a língua dele e puxou para fora...e encostando a boca na boca do menino começou a soprar...soprou e empurrava o coração dele para o chão, friccionando com força o seu peito. Então o menino abriu os olhos e disse:

- Walter, você está me beijando? Walter levantou e falou:

- Não seu viado, só estava te ajudando a viver. Estou tentando te salvar, filho da puta! Você sabe que eu já tenho um gay em minha conta na hora que for conversar com o criador. Você quer ser o segundo?

Então o babão, levantou branco parecendo as cinzas de um vulcão extinto e ficou caminhando em volta da mesa. Andando ao redor da mesa feito uma barata tonta. A tarde começava a chegar nas montanhas de Minas Gerais...tardes coloridas de sol e nuvens que brincavam entre elas. Momentos de luz e sombras, deixando o sol aparecer e morrer em sua sina diária pelo céu. Cosme chamou todos para se reunirem em volta da mesa. Todos se sentaram em banquinhos de madeira. Tião, ainda, se encontrava tonto por causa do ataque epiléptico que havia sofrido e as drogas que havia usado. 

- Vamos contar...vamos contar histórias....- Disse Cosme, com os olhos coloridos das balas loucas.

Walter levantou em seus dois metros de altura e completou:

- Só se for história boas demais....

Cosme olhou para ele e falou:

- Cara, vamos sim...mas primeiro vamos beber um vinho e assar uma carne...afinal hoje é sexta e os finais de semanas são longos e cheios de ....tesão...matar para mim, é tesão. Walter levantou, andou em volta do quintal da cobertura e, entre os dentes, respondeu:

- A porta da cozinha se fechou, sozinha. Que diabo foi isto? 

- Talvez tenha sido apenas o vento, ele pensou alto.

Ele tinha uma química estranha com o apartamento onde morava. Sentia vibrações ruins dentro dele. Mas para não atrapalhar a narrativa, eles começaram a contar histórias. Walter foi o primeiro a relatar.

- Velho, quando eu ia para a fazenda do meu avô, eu era louco.. eu tinha uns 10 ou 11 anos de idade. O nome do meu avô era João, então em todo tempo das festas de São João ele fazia fogueiras na fazenda dele...um dia, eu peguei um gato que era de minha avó, amarrei uns foguetes no rabo dele e coloquei fogo, quando acendi, o bicho saiu correndo igual doido explodindo...até hoje deve estar perdido na vida...correndo pelo mundo ..  - todos riram demasiadamente. O babão, ainda meio atordoado pelo problema que tinha, então tomou a palavra:

- Cara, eu gostava de pegar lagartixa e abrir a barriga dela viva para estudar...sempre sonhei em ser médico.. Eu via o interior das lagartixas vivas, quando não era lagartixa eu abria os sapos...tudo mexendo, tudo funcionando. As tripas, o fígado os rins..., O coração do bicho ainda pulsando e eu gostava de matar o coração do bicho..metia a pinça e matava. Cosme começou a descrever sua história.

- Eu gostava de laçar urubus pelas pernas... eu colocava um pedaço de carne podre amarrada na ponta de um laço de uma corda,, e os urubus desciam para comer. Quando ele pisavam no centro do laço, eu puxava a corda. Eles voavam com a perna laçada e eu empinava eles feito um papagaio. Mas nunca matei. Só gostava da sacanagem de interromper o voou deles para o céu. Damião olhou para os três e disse:

- Porra, vocês são todos tarados, porém bonzinhos; eu gosto de matar gente. O maior prazer que sinto na vida é matar gente. Já matei uns 3 e sempre fico pensando na possibilidade de matar mais...é gostoso. Eu vendo o sofrimento nos olhos do cara que estou matando...com tiro não é legal...prefiro com a faca porque eu sinto o tesão de perto. Walter não disse nada...apenas se levantou e passou a mão pelos cabelos grandes e escuros. E então gritou:

- Meninos, vamos...agente não pode perder tempo. Eu não tenho nada para fazer e vocês, também não....então vamos...vamos para o norte de Minas Gerais. Desbravar estradas...e, matar gente.

Todos se levantaram ao mesmo tempo. Walter saiu, praticamente correndo, e todos foram atrás dele. Pegaram o elevador do prédio vazio e foram direto para a garagem. Estavam entupidos de drogas. Na garagem, cada um pegou sua moto e os sons dos motores das motocicletas, rangeram furiosamente, sufocando o mormaço da tarde. Sairam um por um, pelo portão da garagem, acelerando. Acelerando feito loucos em busca dos confins do universo. Walter gritou, apesar de não estar sendo ouvido...

- Sigam-me....

E foram pela tarde cheia de sol no asfalto da cidade. Passaram pelo lado rico e pelo lado pobre da cidade...mansões e casebres se misturaram em suas mentes loucas....Nas margens da estrada viram um garoto com um picolé na boca e na porta dos casebres pessoas descansavam sentadas nas calçadas. Parecendo os 4 cavaleiros do apocalipse, eles andavam pelas estradas de asfalto. A motocicleta de Walter era vermelha, uma Kawasaki, a moto de Tião Babão era uma Yamaha amarela, os dois irmãos, Cosme e Damião tinha Hondas, Cosme com uma azul e Damião com uma preta. Damião, parou a moto, sua Honda preta, e disse:

- Caras...não vou poder ir com vocês desta vez...sinto muito...arrumei uma namorada linda e rica. Tenho que ficar com ela.

Walter olhando para ele falou:

- Tudo bem, cara...mas na próxima vez, não fure compromissos...vá lá, seja feliz com sua nova namorada. Então os 3 saíram pelo espaço vazio da estrada em direção ao norte de Minas Gerais...o relógio apontava  2 horas da tarde. Depois de viajarem a 100 kilometros por hora nas estradas, pararam para descansar. Bocas secas, olhos vermelhos e cheios de poeira do asfalto. Walter disse:

- Meninos, estão vendo aquela estrada de terra ali? Vamos por ela em direção a Januária. Lá tem o Rio..o velho Rio São Francisco.

Todos viraram suas motos e foram em direção da estrada de terra e poeira...o babão babava no capacete parecendo um sapo fumando cachimbo. Pegaram a estrada...ramos e arbustos comuns passavam pelos olhos deles sob o capacete. Em alta velocidade suas motos trepidavam no cascalho da estrada. Viajando, viajavam e eles iam, até verem um vulto negro nas estrada de chão...as motos aceleraram...Walter gritou:

- Estão vendo lá na frente? Parece que tem alguém na estrada.

As motos roncando os motores foram cobrindo de poeira a suas trajetórias no tempo...então rapidamente chegaram perto de uma pessoa. Um negro velho caminhava com um pau preto no ombro e na ponta do pau tinha uma trouxa branca. Eles se aproximaram . O babão, roncando os pneus de sua moto na areia cheia de pedregulhos, gritou:

- Velho, para onde esta estrada vai? – e foi em direção do velho negro...

O velho não disse nada. E continuou sua caminhada.. As motos se aproximaram do velho... Walter chegou com sua moto pela frente e viu que os olhos do velho estavam tomados pela catarata. Então disse:

- Caras, este cara é cego! Os olhos dele são brancos... e deve ser surdo, também.

O Babão aproximou a moto do velho e falou:

- Legal...esta é a melhor vitima...ele não vai contar para ninguém e nem dizer que nos viu...

Acelerou sua moto e, em um ato insano e selvagem, jogou a moto en cima do negro velho...o negro caiu na poeira do chão da estrada... Ele voltou acelerando sua moto, sorrindo feito um louco. O velho caído no chão não conseguia se levantar. Então o babão veio e passou por cima do peito do velho. As vísceras do velho negro voaram pelo ar. E todos foram com suas motos passando sobre o corpo caído no chão. Passaram por cima dele até ele não existir mais. Todos começaram a sorrir e dentro de pouco tempo haviam gargalhadas. Walter foi conferir o crime e disse:

- Legal cara..gostei de ver sua ação..vamos passar por cima desta carniça imunda, fétida e negra... e os pneus das motos se vestiram de sangue. Eles aceleram as motos, e o negro ficou lá na poeira da estrada, manchando a areia de sangue vermelho; colorindo o chão do sertão.

“Não te disse que cuidar é melhor do que matar?” – Dizia Deus, com a faca entre os dentes!

E eles continuaram a viagem...chegaram perto de um lugar lindo. No lugar existia um portal como se a Terra e o Universo tivessem combinado em fazer aquela construção exatamente ali. Uma coisa mais bela que eles já tinham visto. Nuvens cobriam o céu de cores, todas as cores. e rochas coloridas cobriam as montanhas ao redor. Walter, parou a moto e disse:

- Caras...que lindo! Vocês estão vendo o que eu vejo?

Todos tiraram os capacetes e olhando para a estrada em frente falaram:

- Genial. – Uma estrada cheia de luz – disse Cosme.

Em frente deles surgiu uma estrada cheia de luz. Eles aceleraram as motos e entraram no portal. Ao entrarem, ficaram completamente iluminados...a luz mais clara do mundo chegou nos olhos deles...ficaram extasiados...Walter foi em frente e os outros atrás dele.

- Cara – que loucura...estou me sentindo flutuando – disse o Walter en cima de sua moto.

Todos tinham entrando no portal.  Walter acelerou sua motocicleta e os outros foram atrás  dele. As cores eram vívidas e claras, uma cor tão branca e tão suave, que faziam com que eles entrassem cada vez mais por dentro dela. Era um êxtase feito de milhões de prazeres. E foram tocando as motos, como os vaqueiros tocam os bois... andando velozes, de repente, surgiu uma árvore no caminho... Era uma árvore diferente. As folhas eram azuis e quadradas... Walter desceu da moto... Em cima da árvore, três passarinhos brincavam...eles brincavam voando em volta de um galho da árvore, como se brincassem em um carrossel, porém, eles não eram passarinhos normais. As asas deles eram quadradas, para não dizer quadradas, eram pentagonais. Eles eram formados de asas estranhas e que modificavam o seu formato e, eram coloridas. Azuis, vermelhas, amarelas, e cheias de todas as cores que existem na natureza. Eles brincavam...brincavam em um galho da árvore. Walter desceu da moto e vendo os bichos na árvore foi em direção deles...tinha sacado o seu revolver, um 38, e caminhou a passos largos em direção dos bichos.  Os pássaros continuaram a voar em volta do galho da árvore, como se brincassem em um carrossel do parque de diversões...do lado deles tinha um pássaro todo negro com a cabeça azul e os olhos vermelhos que olhava para toda cena, sem interferir. Os bichinhos não se importaram com a aproximação de Walter. Walter chegou bem próximo..os bichos pareciam que não o viam..o pássaros continuaram em sua brincadeira. Dançando no ar.  Walter então levantou sua mão, mirou e disparou contra os pássaros na árvore. As balas passaram pelos pássaros atravessando-os. Entretanto todos continuaram a brincar. Eles não tinham sido atingidos pelos tiros que tinha passado por dentro de seu corpos. Walter recuou com a arma na mão e disse:

- Vocês viram? Os tiros passaram dentro dos bichos e eles nãos sentiram e nem nos estão enxergando!

Todos se afastaram...havia terror em seu olhos...

- Estes bichos são alucinações coletiva..vocês estão vendo? – Disse Walter.

Os motoqueiros se afastaram.. O babão com um resto de coragem no estômago, falou:

- Cara..impressionante. Você atirou e os pássaros esquisitos ainda estão vivos. Vamos sair deste lugar. Quero ir para minha casa....imediatamente.

Walter voltou e descarregou a arma nos pássaros esquisitos...porém, eles continuavam a brincar no galho da árvore, sem se importarem com sua presença e nem com o chumbo grosso disparado para matá-los. O pássaro azul com a cabeça preta, continuava a observar a brincadeira dos outros pássaros. Apenas abriu o bico e deu um sorriso...alguma coisa como um sorriso. Walter correu para sua moto, com a arma ainda cheia da fumaça de pólvora escapando pelo cano. Sentou, abaixou a cabeça e ficou meditando...Olhou de novo e os bichos esquisitos ainda brincavam no galho da árvore. Nunca tinha visto este tipo de vida na Terra.  Acordou de sua meditação e encontrou com os seus amigos sentados nas motos.

- Vamos Walter...temos que sair daqui...acho que estamos num lugar estranho demais...vamos voltar Walter? - disse o babão. Então olhou para trás...a estrada era infinita e subia em direção ao céu, tanto para frente, quanto para trás. Walter gritou:

- Calma caras..estamos meio perdidos...mas vamos nos encontrar. Vocês viram que a estrada para trás está indo para o céu? Se existe uma estrada para a frente, existe uma saída...nós vamos sair deste lugar, se formos em frente...

Mas a premissa apesar de ser verdadeira, a conclusão era falsa, pois, existem labirintos na terra e na vida que não oferecem a possibilidade de se sair deles e, a estrada em frente deles, também subia para o céu! E eles continuaram a acelerar as motos pelo universo branco e claro parecendo uma folha de papel em branco.  A estrada se alongava diante das rodas das motos. Eles aceleravam selvagemente as motos. Árvores muito estranhas corriam junto com eles pela estrada. Em frente, eles se aproximaram de outro portal. Agora azul. Walter parou a moto e foi seguido pelo Cosme e pelo Babão. Walter falou:

- Caras..que loucura um lugar azul. Vamos entrar ou não? Tião olhou para ele e disse:

- Não Walter..é melhor a gente voltar. Estou sentindo que tem uma vibração ruim no ar. Isto está ficando muito estranho...

Walter desceu de sua moto, tirou o revólver da cintura, - ele guardava a arma atrás de sua calça no cinto - , e foi em direção de Tião. Por trás, sua calça jeans balançava suavemente contra o vento.

- Cara, além de babão você é medroso, porra.

Ele caminhou em direção de Tião com a arma. Puxou o cão da arma para trás e com o dedo no gatilho, chegou perto de Tião. O menino olhou horrorizado para o cano do revólver perto de sua cabeça. Walter, falou: - Cara, você é muito medroso, filho da puta!

Tião desceu da moto e ela caiu no chão. Ele ajoelhou e ficou em posição de clemência. E Walter falou com ira dentre os dentes:

- Cara...viver é viver...viver a vida com medo não é viver; se você tiver medo de alguma coisa no mundo, é melhor morrer. Quem vive com medo não vive, apenas vegeta na vida. Então a gente tem que ser forte, cara. Se a gente tiver que morrer a gente morre. Todo mundo morre na porra deste mundo. Vamos subir nestas porras destas motos e vamos em frente, nada no mundo vai nos deter. Você sabe que eu não gosto de maricas...viado, eu já matei um, portanto, não queira entrar na estatística.

Mas não havia alternativa, antes deles subirem nas motocicletas, o portal azul, um mundo completamente azul, veio em direção deles. Eles subiram nas motos e tentaram voltar. Do chão uma enorme montanha se formou cercando-os por trás e, não tinha como voltarem. Todos foram cobertos pelo mundo azul. Tudo era completamente azul. Olharam-se entre si e Walter disse:

- Caras..esta coisa nos pegou. Vamos em frente.

E aceleraram as motos...árvores azuis corriam juntas com eles pela estrada. Num átimo apareceram aranhas negras andando pela estrada. Aranhas negras do tamanho da roda das motocicletas. Eles pararam para a ver a procissão de aranhas negras. Cosme acelerou sua moto e disse:

- Vamos matá-las...

E em alta velocidade foi em direção de uma das aranhas negras. Elas eram diferentes; eram cobertas de pelos salientes e brilhantes, e meio quadradas em uma espécie de distorção das aranhas naturais. Assimétricas. Ele foi com a moto e passou por cima de uma. Por cima,não...passou no meio de uma aranha. Ele não acreditou. Tinha tentado atropelar a aranha, porém, passou no meio dela e ela continuou caminhando como se nada tivesse acontecido. Ele voltou e rangendo com fúria os pneus selvagens da moto foi em direção de outra aranha. E passou no meio de uma outra, de novo, e passou no meio de outra e perdeu o equilíbrio da moto no cascalho da estrada. Os dois voaram pelo lado da estrada, Cosme e sua moto, caíram em um abismo profundo. Walter e Tião aceleraram as suas motos e viram Cosme voando pelo abismo sem fim e observaram a moto de Cosme explodir lançando uma nuvem negra de fumaça sobre a copa das árvores azuis. Eles não viam Cosme. Na cidade de Belo Horizonte, Damião acelerou sua moto para ir na casa de sua namorada. Acelerou no sinal vermelho e um carro veio em sua direção e o jogou de cima de um viaduto dentro do Ribeirão Arrudas. A moto explodiu e ele desapareceu no meio das águas turvas do esgoto do ribeirão. Nasceram juntos e morreram juntos. Acidentes da vida. Tião babão começou a chorar. E as aranhas caminhavam tranquilamente pela estrada na frente deles. Walter voltou para sua moto e gritou:

- Tião...vamos cara...vamos em frente as aranhas não existem, são apenas alucinações nossas, elas estão em nossa cabeças..vamos cara..seja forte meu amigão.

Tião ligou a moto e passando por cima, aliás, melhor, pelo meio das aranhas, seguiu Walter em frente...a estrada era imensa e não parecia ter fim. Andaram a 100 quilômetros por hora na estrada azul. Tudo era azul, não havia nada que não fosse azul, exceto as aranhas negras que eles não viam mais...as árvores a poeira das estrada. Eles estavam num mundo azul...então o azul da noite chegou. Walter falou:

- Cara a noite azul chegou..acho que temos que parar... já não aguento mais ficar em cima da minha moto, minha coluna está doendo.

E um sol azul punha-se no horizonte despedindo-se da Terra....Terra? Más que Terra? Tião babando desceu da motocicleta. Walter, também. Walter falou:

- Cara...escureceu o azul do mundo...vamos descansar um pouco. Azul negro, insuportável...

Tião concordou com ele. E os dois deitaram no chão do lado das suas motocicletas. Fecharam os olhos e começaram a cochilar. Então o céu começou a abaixar sobre eles. Tião acordou do cochilo e viu as milhares de estrelas sobre eles. Ele acordou Walter e disse:

- Walter olhe...

O céu azul noturno e, lá em cima na abóboda celeste as constelações se moviam. A constelação de escorpião andava feito um escorpião no chão. A constelação de câncer caminhava para trás feito um caranguejo. Na constelação de leão um leão rugia faminto no céu. Sagitárius também se mexia com uma flecha na mão. A constelação de gêmeos andava de mãos dadas um com outro, pelo céu; E o céu começou a abaixar sobre eles. Todas as constelações se moviam vivas nos céu sobre eles. Os dois pularam do chão e correram institivamente para suas motos. Olhos vermelhos da estrada sem dormir, cheios de poeira que andavam pelas noites e pelos dias em suas motocicletas. Agora estavam sós no mundo. Um mundo obscuro e louco se movia sobre eles.

- Cara, este ponto de LSD que nós tomamos foi doido demais...quando a gente vai voltar para a realidade – Disse Walter, acelerando sua moto.

- Não sei...não sei...eu quero ir embora para casa. – disse Tião.

Walter gritou:

- Pare com isto cara, já te falei seu marica..se você tiver medo do mundo eu vou te matar, meu 38 está cheio de balas. Tião virou os ombros en cima da moto em alta velocidade. Os dois pisaram no acelerador das motos. Então, não mais que um segundo um sol estranho nasceu no céu em frente deles. Uma grande bola amarela. E o tempo ficou todo amarelo para eles...eles não entraram no portal, o portal entrou neles. Um mundo amarelo feito ouro, entrou dentro deles. Tião passou a mão pela boca ressecada e falou com Walter:

- Walter cara...estou morrendo de sede...eu não aguento mais viver neste mundo não...e começou a chorar e babar sobre sua moto. Walter disse:

- Segure firme cara..tem uma luz no fim do túnel..sempre tem...

Mais outra mentira jogada ao vento. E eles foram com suas motos pela manhã amarela. Um sol doente nascia em frente deles. Um sol amarelo. Eles aceleraram suas motos pela estrada amarela...árvores amarelas corriam com eles pegando carona nas duas motos. E lá no fim da estrada, no fim do túnel amarelo, os dois viram alguma coisa que parecia com uma cidade. Eles colocaram mais potência no motor das motos e  chegaram. A cidade era estranha; não tinha ninguém. Casebres de madeiras e outros feitos de pedras se alinhavam no meio da rua, uma rua nua feita de terra crua e cheia de poeira. E eles chegaram com suas motocicletas e estacionaram em frente de um lugar onde em uma placa estava escrito: RESTORANTE. Eles apearam das motos e subiram a escada. Entraram pela porta aberta e viram um balcão em frente deles. Mas não tinha ninguém. Tinha uma prateleira cheia de garrafas e um barril lá atrás no lugar que parecia ser um bar. Tião falou:

- Walter...parece que tem água aqui para a gente beber.

Walter colocou o dedo na boca em sinal de silêncio. Os dois passaram para o lado de dentro do balcão. Walter pegou um copo feito de barro e foi em direção do barril. Abriu a torneira e a água jorrou dentro do copo dele. Ele bebeu e passou para o Tião babão..Tião bebeu e assim que acabou de beber, apareceu uma mulher na porta e perguntou:

- Quem está ai?

Ela estava com uma espingarda na mão. Ela olhou para eles, na direção deles...e disse de novo:

- Quem está ai?

Walter olhou para Tião e fez um sinal para ele ficasse calado e quieto, com o dedo indicador no meio dos lábios, pois, parecia que ela não os via. A mulher negra voltou pela porta e sumiu da visão deles...eles beberam água a vontade. Saciaram a sede. Então, Tião deixou o copo de barro cair no chão..A mulher voltou e gritou:

- Quem está ai? – e disparou um tiro para cima.

Os dois se abaixaram embaixo do balcão. Ela foi em direção do balcão e eles viram ela chegando, entretanto, as pernas dela passaram pelo meio deles, sem eles sentirem ela e sem ela sentí-los. A senhora voltou e foi para a sala adjunta ao bar. Os dois se levantaram e saíram devagar..Walter foi até o lugar onde ela tinha entrado e viu ela sentada com duas agulhas de fazer crochê na mão...ele olhou para ela, entretanto ela não o via. (mais uma vez). Os dois correram para a porta de saída do “Restorante”. Na rua deserta o vento calmo soprava e, levadas pelo vento calmo da tarde, bolas feitas de arbustos ressequidos passeavam bem devagar. No horizonte uma massa verde se formava e vinha em direção deles...Walter olhou e gritou...

- Cara! Está vendo? Vem mais uma coisa em nossa direção e agora é verde...

Os dois pularam em suas motos e aceleraram, mas a massa verde do tempo, veio e cobriu eles...tudo estava verde. Um mundo verde em volta deles. Eles saíram desesperados da cidade acompanhados pela massa de um mundo verde. Então Tião gritou:

- Walter...estou passando mal...

E a moto junto com ele, caíram no meio da poeira verde. De todos os lados começaram a sair sons no lugar..sons de bichos..o sol verde a tarde verde, a noite verde e bichos verdes, faziam todos os tipos de sons naquele mundo verde. Walter voltou para ajudar o babão, mas quando olhou para trás diversos bichos primitivos vinha em direção dele...todos verdes...elefantes, zebras, leões, gatos, cachorros, hienas, cobras, girafas, gorilas, lagartos...todos bichos primitivos...eles pareciam apenas um pouco com os bichos que existem na atualidade...eram todos bichos de um tempo distante e perdidos nos tempos da Terra. Então Walter pulou em sua moto e acelerou no mundo verde....poeira verde levanta-se pelo caminho. Os bichos vieram e Tião babão viu um enorme pé vindo em direção do seu rosto...um pé de elefante. Um pé verde de elefante,  de um elefante verde. E ele foi esmagado...apenas fragmentos de ossos e sangue ficaram espalhados pelo chão. O pé do elefante atingiu sua cabeça e seu tórax e suas pernas ficaram tremendo no chão no último estertor da vida, no último dilúvio corporal. Walter acelerava pela estrada com os bichos verdes atrás dele. Só pensava em sair daquele lugar e fugir. Entrava a direita e a esquerda com sua moto. Era um campeão de motocross...e foi e foi e foi...de repente, na estrada abriu-se um buraco verde. E ele caiu dentro. Bateu o capacete dentro do buraco e ficou tonto, a moto caiu junto e estava girando ligada, em rodopios...ele pulou por cima dela e desligou. Apenas a calma da noite verde veio sobre ele...Os bichos continuavam a soar seus sons. Sons de um mundo verde cheio de clorofila. Ele pela primeira vez na vida sentiu medo. Tirou o capacete e começou a tentar escalar o buraco da estrada, onde havia caído. Então viu uma luz flamejante chegando perto do buraco onde ele estava. Ele recuou..a luz chegou e ele viu o rosto do velho negro cheio de sangue olhando para ele. Um rosto desfigurado iluminado pela luz verde de um lampião.

“Este é o rosto do cara que o Cosme atropelou na estrada!” – Pensou, e então gritou:

- Eu não tenho nada com aquilo...não fui eu que te atropelei primeiro. O preto velho levantou o candeeiro e ele viu em volta de si, milhares de cobras... cobras verdes...uma enrolou em sua perna, outras dançavam suavemente sob a luz da lanterna verde, na noite. Ele sentiu uma picada forte em seu pescoço. Trovões verdes piscavam no céu. E outras picadas foram acontecendo em seus membros inferiores e superiores. A dor estava ficando alucinante e a dor ficou insuportável...e a dor era verde. Dor da clorofila.

FIM.

publicado por universoinverso às 23:18 | link do post
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